Eva Jospin transforma papelão em poesia. E o Grand Palais finalmente entendeu o recado
Exposição de Eva Jospin lotada no Grand Palais
Foi em 2023 que comecei a prestar atenção no trabalho de Eva Jospin. Palazzo, exposição no Palais des Papes em Avignon. Eu não fui ver infelizmente, mas as imagens me perseguiram. Instalações monumentais de papelão ocupando salas góticas medievais, criando um diálogo improvável e absolutamente potente entre arquitetura papal e floresta imaginária.
Aí veio a Art Basel. Galleria Continua. E eu finalmente vi, ao vivo, uma floresta de papelão. Fiquei parada na frente de uma floresta de papelão pensando: isso aqui pode ser tanta coisa… cenografia, escultura, arquitetura, paisagem mental. Depois foi a individual dela na Continua do Marais, Tromper l'œil. E agora, Grottesco no Grand Palais. Quando fui, estava lotado. Fila pra entrar e muita gente fotografando. O que eu mais gostei de ver foram as turmas de escolas ouvindo atentamente os monitores explicarem a obra dela. Gente parada em silêncio absoluto diante de grutas de papelão como se estivesse numa catedral. Maravilhoso.
Num jantar na casa da ORLAN, tive a oportunidade de conhecê-la. Ela me contou que entrou na École des Beaux-Arts pensando em fazer cenografia e saiu artista plástica. Fiquei pensando nisso depois. Porque faz todo o sentido. Cada instalação dela causa essa sensação de explorar. Cada floresta é uma cena esperando que você entre. Cada gruta é um cenário onde você vira personagem.
É claro que ser filha de Lionel Jospin, ex-primeiro-ministro francês, facilita certas entradas. Seria ingênuo negar. Mas quem fica parado diante das florestas dela no Grand Palais não está pensando no sobrenome. A potência artística desse trabalho é dela e de mais ninguém. O sobrenome pode até abrir portas, não constrói grutas de papelão camada por camada durante anos.
Escultura no campo ampliado (ou: o que Rosalind Krauss não previu)
Pra entender o que a Eva Jospin faz, vale voltar a um texto fundamental. Em 1979, Rosalind Krauss publicou Sculpture in the Expanded Field na revista October. O argumento era que a escultura contemporânea tinha extrapolado suas fronteiras tradicionais e passava a operar num campo ampliado entre paisagem, arquitetura e não-paisagem. Krauss mostrava que artistas como Robert Smithson, Mary Miss e Robert Morris já não faziam "escultura" no sentido clássico, mas trabalhavam nessas zonas intermediárias.
O trabalho da Eva cabe perfeitamente nessa discussão. As florestas de papelão são esculturas? São cenografia? São arquitetura? São paisagem? São instalação? São todas essas coisas e nenhuma delas inteiramente.
Quando você entra numa gruta da Eva Jospin, está dentro de uma escultura que funciona como arquitetura, que imita paisagem, que se comporta como cenário e que provoca uma experiência de imersão que é quase ambiental.
Quando o material descartável vira declaração de princípios
Eva estudou na École des Beaux-Arts de Paris. Ganhou o Prix de l'Académie des Beaux-Arts em 2015. Foi residente da Villa Medici em Roma (2016-2017). Expôs no Palácio dos Papas em Avignon, no Museu Fortuny em Veneza, na Orangerie de Versailles. Acaba de ser eleita pra cadeira de escultura da Académie des Beaux-Arts. É representada pela Galleria Continua desde 2023.
Não por falta de opção que escolheu papelão. Por declaração de princípios.
Ela pega esse material industrial, descartável, humilde, e o transforma em gruta, em floresta, em ruína romana, em ninfeu barroco. Camada por camada, corte por corte, colagem por colagem. Numa entrevista, ela explicou que o papelão é um material que não exige reverência. Disponível em abundância, barato, e que permite trabalhar como se faz com a pintura: corrigindo, sobrepondo, voltando atrás.
Essa escolha do material humilde como território de trabalho artístico me faz pensar imediatamente em Maxwell Alexandre e na série Pardo é Papel. O Maxwell pinta sobre papel pardo, aquele papel kraft que todo mundo conhece no Brasil. Só que "pardo" é também a categoria racial do censo brasileiro, historicamente usada pra diluir a negritude. Quando Maxwell pinta corpos negros sobre papel pardo, o suporte vira manifesto. A fragilidade do material (ele incorpora os rasgos, as emendas, as marcas) é parte da obra.
Florestas de papelão de Eva Jospin
Eva e Maxwell trabalham em contextos completamente diferentes, mas há algo que os conecta na raiz: a recusa do material nobre como condição de legitimidade. O papelão da Eva e o papel pardo do Maxwell são escolhas políticas tanto quanto estéticas. Ambos transformam o descartável em permanente, forçam a gente a olhar pra o que normalmente ignoramos. E ambos operam numa escala monumental que contrasta deliberadamente com a fragilidade do suporte. É esse contraste que produz a tensão. E é essa tensão que produz a potência.
A Domus Aurea, o menino que caiu na gruta e a revolução que nasceu no escuro
O título da exposição no Grand Palais, Grottesco, vem de uma história que me fascina e que merece ser contada com mais detalhe do que normalmente se faz.
No final do século XV, um jovem romano caiu acidentalmente numa abertura no Monte Oppio e se viu numa espécie de caverna decorada com afrescos extraordinários. O que ele não sabia é que tinha acabado de entrar nos restos soterrados da Domus Aurea, o palácio dourado que o imperador Nero mandou construir após o grande incêndio de Roma em 64 d.C. Um palácio tão monumental e extravagante que seus sucessores preferiram enterrá-lo sob as Termas de Trajano em vez de conviver com a memória daquele excesso.
E aí aconteceu algo extraordinário. A notícia se espalhou e os artistas de Roma começaram a descer por cordas até aquelas salas subterrâneas, com tochas, pão, presunto, frutas e vinho (como descreveu um artista lombardo anônimo em 1496), pra copiar os motivos decorativos que encontravam nas paredes e nos tetos. Pinturicchio foi um dos primeiros, por volta de 1480. Filippino Lippi e Luca Signorelli vieram em seguida. Depois, Rafael e seu assistente Giovanni da Udine, provavelmente por volta de 1514.
Como esses espaços soterrados pareciam grutas (grotte em italiano), a decoração que encontraram ali passou a se chamar grottesca, de onde vem "grotesco". Sem ser pejorativo. Mas descritivo: arte de gruta.
O que esses artistas viram mudou o curso da arte ocidental. Os motivos da Domus Aurea, que misturavam formas vegetais, animais, arquiteturas impossíveis e figuras fantásticas num estilo que desafiava todas as regras de representação, foram incorporados nas obras da Renascença. Rafael foi o primeiro a entender a lógica daquele sistema decorativo e a reproduzi-lo de forma orgânica. As Loggie do Vaticano, decoradas por sua oficina sob encomenda do Papa Leão X, são o exemplo mais célebre: grotescos que poderiam ter sido pintados por artistas romanos antigos.
Eva Jospin conhece essa história profundamente. Numa entrevista à Transfuge, ela disse que o grotesco não é um estilo, é a memória de um evento: a descoberta. Certas palavras são descritivas, enquanto outras são comemorativas. O grotesco pertence a essa segunda categoria, explicou. E conectou a descoberta da Domus Aurea às primeiras explorações de grutas como Altamira no final do século XIX. Sempre o mesmo gesto: descer ao escuro e encontrar beleza onde ninguém esperava. É exatamente o que ela faz com papelão.
Compagnon du Devoir
A Gazette Drouot descreveu o trabalho de Eva como o de uma artista que inscreve-se em uma genealogia de talhadores de pedra da Idade Média, mas que trabalhavam em outra matéria.
Grottesco de Eva Jospin no Grand Palais
Talhadores de pedra medievais. Quando li isso, pensei imediatamente nos Compagnons du Devoir. Pra quem não conhece (e eu confesso que aprendi sobre eles morando aqui na França): os Compagnons du Devoir et du Tour de France são uma organização de artesãos que existe desde a Idade Média. A tradição remonta aos construtores de catedrais, e a primeira menção documental data de 1420. O sistema funciona assim: um jovem aprende um ofício (carpintaria, cantaria, marcenaria, serralheria, entre outras trinta) e depois viaja pela França durante anos, mudando de cidade a cada seis meses ou um ano, trabalhando com diferentes mestres. A cada etapa, aprofunda a técnica e absorve conhecimento. No final, apresenta um chef-d'œuvre, uma obra-prima que prova sua mestria. Só então é recebido como Compagnon.
Eles construíram a Torre Eiffel (sim, uma quarentena de Compagnons carpinteiros trabalhou na construção entre 1887 e 1889). Eles restauram catedrais, palácios e monumentos históricos. E continuam existindo: hoje são mais de 10 mil jovens em formação, em mais de 60 maisons espalhadas pela França, aprendendo pelo gesto, pela repetição, pela transmissão de mestre a aprendiz.
A Eva é outro tipo de profissional. Mas o método dela é de compagnonnage: acúmulo lento de técnica pelo gesto repetido, recusa da pressa industrial, valorização do processo tanto quanto do resultado, e a crença de que o material se revela a quem tem paciência pra ouvi-lo.
E aqui entra uma reflexão que me interessa muito. Estamos vivendo um momento em que a inteligência artificial pode gerar imagens em segundos, em que qualquer um produz uma "obra" com um prompt de texto, em que a velocidade é o valor máximo. Nesse contexto, o trabalho manual ganha um significado mais forte. Uma espécie de resistência.
A visibilidade do gesto, a evidência da mão, o tempo inscrito no material se tornam, paradoxalmente, os maiores valores diferenciais num mundo saturado de imagens digitais. Quando você fica diante de uma floresta de papelão da Eva Jospin, está vendo milhares de horas de trabalho manual. Cada corte foi feito com as mãos. Cada colagem foi feita com as mãos. Nenhuma máquina, nenhum algoritmo produziu aquilo. E é exatamente por isso que as pessoas param em silêncio diante delas.
Três mulheres no Grand Palais (e por que isso importa)
Neste exato momento, três artistas mulheres, contemporâneas e vivas ocupam o Grand Palais simultaneamente. Eva Jospin com Grottesco, Claire Tabouret mostrando os bastidores dos vitrais que criará pra Notre-Dame, Mickalene Thomas celebrando a cultura negra.
Vocês sabem que eu defendo a inclusão das mulheres artistas na história da arte. Não é sobre "cancelar" os mestres, mas sobre ampliar, completar, corrigir as lacunas históricas deliberadas que apagaram gerações de mulheres criadoras. Ver o Grand Palais dando esse espaço me enche de esperança.
Grottesco: a travessia
Mais de 15 obras. Algumas criadas especialmente pra essa exposição. Entre elas, uma série inédita de baixos-relevos bordados que marca uma virada no trabalho dela. A broderie perde a plenitude, ganha volume, vira arquitetura tridimensional. Pérolas, fios soltos, franjas, cascatas. Ninfeus reinventados em fio e tecido.
O percurso te leva numa travessia em constante transformação: promontório, cenotáfio, gruta, ruínas, floresta. Você entra num mundo à parte. Você está numa gruta mental, numa floresta que nunca existiu mas que de repente parece mais real que qualquer floresta verdadeira.
Como a artista disse numa entrevista ao Grand Palais: suas instalações se inspiram “grutas maneiristas e construções do século XIX, essas estruturas decorativas que imitavam cavidades naturais para pontuar o percurso.” É uma arte que funciona como arquitetura de jardim: não pra ser vista de fora, mas pra ser atravessada.
A exposição foi prorrogada até 29 de março por causa do sucesso.
Dior, Mumbai e 320 artesãs bordando uma floresta
Em 2021, Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da Dior, convidou a Eva pra criar o cenário do desfile Haute Couture outono-inverno no Musée Rodin. O que ela fez foi Chambre de soie.
Quarenta metros de bordado feito à mão em Mumbai pelo atelier Chanakya e pela Chanakya School of Craft. Mais de 320 artesãs. Mais de 400 nuances de seda, algodão e juta. Cada traço do desenho da Eva virou fio. Cada fio virou paisagem.
A obra foi inspirada pela sala de bordados do Palazzo Colonna em Roma (que ela viu durante a residência na Villa Medici) e pelo ensaio de Virginia Woolf, A Room of One's Own. Uma reflexão sobre espaço próprio, sobre território feminino, sobre o direito de criar.
A instalação cresceu. Virou 107 metros. Foi pra Orangerie de Versailles em 2024. Ela criou painéis inéditos inspirados nos bosques dos jardins de Versailles, incluindo o mítico bosquet du Labyrinthe que desapareceu no século XVIII. A Dior também encomendou uma edição limitada de 150 peças de um tronco bordado em miniatura pro perfume Miss Dior.
Imagina. Você trabalha meses com centenas de artesãs do outro lado do mundo, coordenando, escolhendo 400 nuances de fio, pra criar uma floresta que nunca existiu mas que carrega Virginia Woolf, o Palazzo Colonna, Versailles e os contos de fadas da sua infância.
Isso é compagnonnage contemporâneo. E o que significa uma grande marca de luxo encomendar uma obra monumental a uma artista que fez carreira transformando papelão? A Dior reconheceu algo fundamental: o gesto lento, o trabalho manual paciente, o material humilde transformado pela persistência é, no fundo, o mesmo valor que sustenta a haute-couture. O que a Eva faz com papelão e o que uma première d'atelier faz com seda são gestos irmãos. A mesma lógica do compagnonnage: excelência pelo acúmulo de gesto.
A Amazônia como experiência fundadora
Eva começou a trabalhar com papelão aos 15 anos. Visitou a Amazônia na adolescência e aquilo nunca saiu da cabeça dela. A citação exata, dada numa entrevista, é reveladora: “Na Europa, tudo o que você vê ao seu redor foi transformado pelo homem. Ver a Amazônia era como ver a escala de um deserto, mas cheio de vida e no qual você pode desaparecer.”
A ideia de uma natureza que pode te sobrepujar. De uma floresta onde você se perde. De uma gruta onde a civilização fica do lado de fora.
Pra quem é brasileira como eu, essa frase ressoa de um jeito particular. A Amazônia como experiência fundadora da imaginação de uma artista europeia me lembra que a gente às vezes precisa do olhar do outro pra recalibrar o próprio espanto diante do que é nosso. Uma floresta que nunca existiu, feita de papelão num ateliê em Paris, nasceu de uma floresta que existe de verdade.
Ela também se inspira em Édouard Vuillard, dos jardins barrocos italianos, das folies arquitetônicas francesas do século XVIII e dos panoramas do século XIX. A entrevistadora da France Info registrou uma frase bonita dela durante a montagem: a história da arte abole o tempo. É essa sensação que domina quando você caminha por Grottesco: os afrescos da Domus Aurea, os grotescos de Rafael, os ninfeus barrocos, a Amazônia, tudo está ali, coexistindo no papelão.
As portas do Grand Palais abertas pra mulheres artistas vivas e contemporâneas. As filas se formando. As pessoas parando em silêncio diante do papelão. O reconhecimento chegando, não como concessão, mas como evidência de algo que Rosalind Krauss talvez chamasse de uma nova expansão do campo. Uma expansão que inclui o material humilde, o gesto lento e a mão que trabalha.
Informações práticas
Eva Jospin, Grottesco · Claire Tabouret, D'un seul souffle Grand Palais, Paris Até 29 de março de 2026 (prorrogado!) De terça a domingo, 10h às 19h30 (sexta até 22h) Ingresso: 15 euros (inteira), 12 euros (reduzido). Pra quem vem do Brasil: em torno de R$95 na inteira, pela cotação atual. Menores de 18 anos: gratuito Audioguia disponível em francês e inglês (5 euros) Reserve antes. Estava lotado quando fui.
Para saber mais
Livro: JOSPIN, Eva; CAMPBELL, Diana. Grottesco. Éditions de la Rmn-Grand Palais, 2025.
Entrevistas citadas: "Dans le monde fantastique d'Eva Jospin: 8 questions à l'artiste", Grand Palais, dezembro 2025. "Eva Jospin et Claire Tabouret au Grand Palais", Transfuge, dezembro 2025. "Eva Jospin et Claire Tabouret au Grand Palais: de la lumière et des ruines", franceinfo Culture, dezembro 2025.
Sobre o campo ampliado: KRAUSS, Rosalind. "Sculpture in the Expanded Field". October, vol. 8, primavera 1979, pp. 30-44.
Sobre Maxwell Alexandre: Pardo é Papel, catálogo da exposição, Musée d'Art Contemporain de Lyon / Bernard Chauveau Éditeur, 2019.
Sobre a Domus Aurea e os grotescos: SQUIRE, Michael. "Fantasies so Varied and Bizarre: The Domus Aurea, the Renaissance, and the Grotesque", in The Blackwell Companion to the Age of Nero, Wiley-Blackwell, 2012. DACOS, Nicole. La Découverte de la Domus Aurea et la Formation des Grotesques à la Renaissance. Leiden, 1969.