Das telas à avenida: como as escolas de samba contam a história da arte
Ala des baianas, escola de samba Vai-Vai, São Paulo 2016
Ano passado eu fiz uma coisa que adorei: dei uma palestra sobre história da arte e carnaval. Em francês. Pra setenta pessoas de um banco. Fui chamada pra falar sobre as conexões entre carnaval brasileiro e história da arte, e eu aceitei, mas sem saber direito o tamanho - e o prazer! - da pesquisa que vinha pela frente.
Porque, olha, carnaval brasileiro não é só uma festa popular. É muito maior: uma obra de arte total, Gesamtkunstwerk em movimento. Música, dança, escultura, pintura, teatro, performance, narrativa histórica, crítica social, tudo junto, ao mesmo tempo, construído por milhares de mãos durante meses. Um atelier a céu aberto onde o produto final dura 70 minutos na avenida e mobiliza comunidades inteiras.
E quando eu digo comunidades inteiras, estou falando de costureiras, ferreiros, escultores, músicos, coreógrafos, historiadores, pesquisadores de enredo, dançarinos, sambistas. Gente que trabalha o ano inteiro, muitas vezes de forma voluntária ou com recursos mínimos, pra construir uma narrativa visual e sonora que vai contar uma história. Que vai transmitir uma identidade. Que vai fazer curadoria de referências históricas, artísticas e culturais.
O que eu descobri nessa pesquisa foi que as escolas de samba vêm fazendo história da arte de um jeito que a gente subestima. Com rigor. Com pesquisa. Com sofisticação conceitual. E com uma generosidade pedagógica impressionante.
Como tudo começou: de ranchos carnavalescos às escolas de samba
Antes de falar dos enredos sobre arte, preciso contar como as escolas de samba nasceram. Porque essa história é fundamental pra entender o resto.
No final do século XIX e início do XX, o Rio de Janeiro tinha os chamados ranchos carnavalescos. Eram grupos muito organizados, inspirados nos corttejos religiosos e militares, com estandartes, seções musicais, coreografias elaboradas e costumes. Os ranchos introduziram a ideia de temática, de comissão de frente, de marcha organizada. Eles foram os avós diretos das escolas de samba.
Ao mesmo tempo, existiam as tradições africanas como o jongo, os bailes de máscaras europeus e as procissões católicas. Tudo isso foi se misturando nas comunidades afro-brasileiras dos morros cariocas.
Em 1928, no bairro do Estácio, nasce a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba reconhecida. Foi fundada por figuras como Ismael Silva, e foi revolucionária porque criou o ritmo sincopado, a batida de samba que a gente conhece hoje. A Deixa Falar virou a semente do que hoje é a Estácio de Sá.
Nos anos 1930, os desfiles se tornaram uma competição oficial. Surgem as ligas de samba, os critérios de julgamento e a institucionalização. E as escolas se tornam mais que grupos musicais: viram porta-vozes de uma cultura que tinha sido marginalizada, que reivindica através da música, da dança, do costume e da mise-en-scène seu lugar na memória coletiva do Brasil.
Obra de arte em 70 minutos: anatomia de um desfile
Um desfile de escola de samba mobiliza entre 2.500 e 4.500 pessoas no dia da apresentação. Mas nos bastidores, ao longo do ano, são milhares trabalhando: o carnavalesco (diretor artístico), costureiras, ferreiros, decoradores, músicos, coreógrafos, pesquisadores.
Cada escola escolhe um enredo, um tema narrativo que pode ser histórico, mitológico, social, político ou artístico. Esse enredo é desenvolvido pelo carnavalesco e vira um samba-enredo, a canção que resume toda a história de forma poética e que vai ser cantada durante os 70 minutos de desfile.
Os elementos que compõem essa obra de arte total:
Parece óbvio, mas é sempre bom lembrar como funciona esse espetáculo. A Comissão de Frente abre o desfile com uma performance teatralizada que apresenta o tema. A Bateria pode ter até 300 percussionistas e cria a base rítmica de tudo. As Alegorias (carros alegóricos) são esculturas móveis gigantes, algumas com vários metros de altura. As Alas (grupos de foliões) representam partes específicas da narrativa, cada uma com fantasias que contam um pedaço da história. O Mestre-sala e Porta-bandeira apresentam o pavilhão da escola com coreografias complexas e cheias de simbolismo.
O júri avalia coerência narrativa, criatividade, harmonia, evolução do desfile, qualidade das fantasias e alegorias, desempenho da bateria, e a performance do casal de mestre-sala e porta-bandeira.
Tudo isso exige precisão, timing, coordenação entre milhares de pessoas, e um conhecimento profundo do tema escolhido.
E olha, quando eu comecei a preparar a palestra, eu sabia que precisava conversar com alguém que realmente entende de Carnaval. Liguei pro meu tio querido Fred Góes. Ele foi professor doutor de Teoria Literária na UFRJ, pesquisador do CNPq, líder do Grupo Interdisciplinar de Estudos Carnavalescos. Passou um ano em Nova Orleans pesquisando as conexões entre o Carnaval carioca e o Mardi Gras. Escreveu livros fundamentais sobre o tema, como "O País do Carnaval Elétrico" e "Antes do Furacão". Foi curador do módulo "Carnaval" da exposição "500 Anos do Brasil" na Biblioteca Nacional.
Quando eu estive no Rio em abril do ano passado, a gente sentou e conversou. Ele me ajudou a entender as conexões, a ver o rigor da pesquisa por trás de cada desfile. Foi essencial pra eu conseguir construir aquela palestra com a profundidade que o tema merece.
1959: Debret voltou ao Brasil pela Sapucaí
Desfile da escola de samba Salgueiro, 1959 – enredo “Debret e o Brasil”
O Salgueiro fez em 1959 algo que mudaria pra sempre os enredos de carnaval. "Viagem Pitoresca através do Brasil" sobre Jean-Baptiste Debret. Debret foi um artista francês da Missão Artística de 1816 que viveu no Brasil por 15 anos (1816-1831). Trabalhou na corte de Dom João VI, mas o mais importante: percorreu o país inteiro documentando tudo. A vida dos escravizados. Os castigos corporais. O trabalho forçado. As cerimônias religiosas. O cotidiano das populações indígenas. Tudo o que a elite brasileira preferia não ver ou não registrar.
Publicou isso em três volumes chamados Voyage pittoresque et historique au Brésil (1834-1839). É fonte iconográfica fundamental sobre o Brasil imperial até hoje.
Um cenógrafo pernambucano chamado Dirceu Nery e uma artista suíça chamada Marie Louise criaram um desfile que reproduzia essas litografias na avenida. Em tempo real. Com gente, com fantasia, com alegoria, transformando gravura em corpo, em movimento, em vida.
Foi o começo da chamada "Revolução Salgueirense", quando as escolas pararam de fazer enredos sobre datas cívicas genéricas e começaram a contar a história negra do Brasil. No ano seguinte, 1960, o Salgueiro seria campeão com "Quilombo dos Palmares". Antes que os livros didáticos dessem protagonismo a Zumbi. Antes que isso virasse consenso acadêmico, a Sapucaí já tinha contado essa história pra milhões de pessoas. Marcel Gautherot, um fotógrafo francês fundamental pra documentação visual do modernismo brasileiro, estava lá. Registrou tudo.
1982: Quando a crítica virou samba-enredo
Vinte e três anos depois, o Império Serrano faz algo que ainda hoje me impressiona pela sofisticação."Bumbum Paticumbum Prugurundum" era um enredo sobre a própria história dos desfiles de samba, desde os anos 1930 até o presente, ou seja, em 1982. E no meio do samba-enredo, essas duas frases: "Pedem passagem pros Moleques de Debret" e "As Africanas, que quadro original".
Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, as carnavalescas, estavam fazendo crítica cultural. Em forma de samba.
Porque logo depois vem: "Super Escolas de Samba S.A. / Super alegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia".
Elas usaram Debret pra falar da origem, da verdade crua do samba, da história que precisa ser contada. E ao mesmo tempo denunciam o que estava acontecendo naquele exato momento: a espetacularização. O dinheiro tomando conta. A gente bamba sendo escondida atrás de alegorias caríssimas. A transformação das escolas em "Super Escolas de Samba S.A." E tem mais. A escola tinha pouquíssimos recursos. Produziu tudo numa oficina da Comlurb. Eram 2.800 componentes desfilando às 10h35 da manhã. Com 37 graus de calor. E mesmo assim ganhou o campeonato.
Foi o 9º título do Império Serrano. E o último no Grupo Especial. Como se a escola tivesse dado um recado: é possível fazer história da arte de alta qualidade sem patrocínio milionário. Conhecimento e precisão não têm preço de entrada.
1992: A herdeira da primeira escola de samba ganha com a Semana de 22
A Estácio de Sá decidiu homenagear os 70 anos da Semana de Arte Moderna. No Rio de Janeiro. Um tema completamente paulistano. A Estácio de Sá, fundada oficialmente em 1986, perpetua esse legado. E em 1992, no seu primeiro título do Grupo Especial, ela escolheu fazer "Paulicéia Desvairada - 70 anos de Modernismo".
Mário Monteiro e Chico Spinosa trouxeram Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Victor Brecheret pra Sapucaí. E ganhou o campeonato.
Tem um detalhe: o samba-enredo não dedicou um único verso à cidade de São Paulo. Nem um. Porque não era pra ser geografia ou rivalidade regional. Era sobre ruptura. A coragem de fazer diferente. Falar de artistas que desafiaram o sistema estabelecido e abriram caminho pra uma arte brasileira que não precisava mais copiar modelos europeus.
Exatamente o que a Deixa Falar fez em 1928 quando criou um novo jeito de fazer samba. Exatamente o que as escolas vinham fazendo há décadas. A escola que inventou o samba moderno ganhando com o enredo sobre quem inventou a arte moderna brasileira.
2003: Portinari ganhou pés (e a avenida inteira)
O Tuiuti levou Cândido Portinari pra Sapucaí no centenário do pintor. "Tuiuti Desfila o Brasil nas Telas de Portinari" foi criação de Paulo Barros, que anos depois se tornaria um dos carnavalescos mais influentes do país.
"Brasil vai me deixa sonhar / Sua arte mostrar / Quanta magia / Nas obras que a óleo pintei / O universo encantei com fantasias".
Portinari pintou retirantes, trabalhadores, a miséria e a dignidade do povo brasileiro. Suas obras estão em museus do mundo inteiro. Mas foi na Sapucaí que elas viraram esse caldeirão de corpo, movimento e vida. Foi ali que o Brasil pintado por Portinari ganhou pés e dançou.
2026: Heitor dos Prazeres e as múltiplas Áfricas que a gente carrega
E agora, daqui literalmente alguns dias, a Vila Isabel vai fazer algo semelhante aos temas anteriores. "Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África" é sobre Heitor dos Prazeres (1898-1966). E olha que figura importante: compositor, sambista, pintor naif, multi-instrumentista. Fundador da Deixa Falar (que virou Estácio), da Mangueira, da Portela. Compôs "Pierrô Apaixonado" com Noel Rosa.
E tem muito mais. Participou das duas primeiras Bienais de São Paulo. A Rainha Elizabeth II comprou uma tela dele. Em 1966, no último ano da vida, foi ao Primeiro Festival Mundial de Artes Negras em Dakar, no Senegal, representando o Brasil.
Heitor foi quem criou os termos "Pequena África" e "África em miniatura" pra falar da região da Praça Onze. Como experiência vivida. Como a África que existia ali, no subúrbio carioca, nas rodas de samba, nos terreiros, nas festas. A África que se reinventou e se manteve viva no Brasil. E ele pintava isso lindamente. Com dignidade, verdade e memória.
Gabriel Haddad, Leonardo Bora e o pesquisador Vinicius Natal vão contar essa história no dia 17 de fevereiro. E tem um detalhe que eu acho lindo: no Festival de Dakar em 1966, foram exibidos dois documentários brasileiros. Um sobre Heitor dos Prazeres. E o outro sobre os preparativos do carnaval da Vila Isabel. Tinha mesmo que ser essa escola, né?
Oscar Niemeyer: do Sambódromo ao Partido Comunista Francês
E já que estamos falando de conexões entre Brasil e França, preciso falar de Oscar Niemeyer.
Em 1984, ele projeta e constrói o Sambódromo do Rio de Janeiro em 110 dias. Oficialmente chamado de Passarela Professor Darcy Ribeiro, o projeto foi uma encomenda do governador Leonel Brizola, com o vice-governador Darcy Ribeiro (o antropólogo) envolvido diretamente. Niemeyer tinha acabado de voltar do exílio.
Sambódromo de Oscar Niemeyer, 1984
Sede do partido comunista em Paris de Oscar Niemeyer, 1967-80
O Sambódromo: 700 metros de passarela, arquibancadas que acomodam dezenas de milhares de pessoas, e a Praça da Apoteose com o arco parabólico de concreto de 30 metros. Niemeyer disse que se inspirou nas curvas do corpo feminino das passistas. É onde acontece a obra de arte total de que estamos falando.
Quase na mesma época, entre 1967 e 1980, Niemeyer tinha projetado e construído a sede do Partido Comunista Francês em Paris. Ele estava exilado na França depois do golpe militar de 1964. E quando o PCF o convidou pra fazer o projeto, ele deu de presente. Disse: "Nossas visões compartilhadas e nossa luta política eram muito mais importantes que arquitetura."
É um prédio à la Niemeyer na Place du Colonel Fabien, no 19º arrondissement. Um bloco de seis andares sobre pares de colunas, espaços públicos subterrâneos, e uma cúpula branca de concreto. Virou monumento histórico em 2007.
Muito interessante perceber que Niemeyer constrói um espaço pro Carnaval no Brasil (1984) e um espaço pra luta política na França (1967-1980). Nos dois casos, ele está criando arquitetura pra encontros coletivos, pra movimentos populares, pra expressões de identidade e resistência. O mesmo arquiteto. As mesmas curvas. A mesma convicção política e estética.
Raphael Barontini: Carnaval como linguagem contemporânea
E pra fechar esse circuito Brasil-França, nnao posso deixar de falar de Raphael Barontini. Artista plástico francês, nascido em 1984, formado nas Beaux-Arts de Paris. Ele trabalha com colagem, misturando fotografia, serigrafia, pintura e impressões digitais. Cria bandeiras, estandartes, tapeçarias, capas cerimoniais.
E o trabalho dele explora exatamente isso: colonização, memória, resistência, representação simbólica dos corpos negros. Ele puxa das tradições afro-diasporicas e caribenhas. E usa os códigos visuais do Carnaval pra reativar narrativas históricas que foram apagadas ou dominadas.
O Carnaval vira, no trabalho dele, uma linguagem de reapropriação cultural e política. Um teatro itinerante de contra-narrativas. Ele questiona quem tem o poder de ser representado, como, e por quem.
Em 2023, ele fez "We Could Be Heroes" no Panthéon em Paris. Em 2025, "Quelque part dans la nuit, le peuple danse" no Palais de Tokyo. Nos dois casos, levando essa estética carnavalesca, celebração identitária e resistência poética pra dentro de instituições francesas tradicionais. Descobri o trabalho dele no estande da galeria Marianne Ibrahim na Paris Plus, hoje Art Basel Paris em 2022.
Então olha o círculo completo: Debret vem do Brasil pra França e documenta. As escolas de samba pegam Debret e devolvem pra avenida transformado. Niemeyer constrói o Sambódromo no Brasil e a sede do PCF na França. Barontini, artista francês, pega a linguagem visual do Carnaval e usa pra questionar a história colonial europeia.
É um diálogo que atravessa o Atlântico nos dois sentidos. As escolas de samba provam que conhecimento histórico e artístico pode circular de outras formas. Que você pode fazer curadoria através de um enredo de carnaval. Que você pode contar a história de Debret com o mesmo rigor que um museu, mas com 2.800 pessoas dançando, cantando, incorporando aquela narrativa.
E sabe o que eu acho mais incrível nisso tudo? É o coletivo. É o fato de que o Carnaval não separa as coisas em caixinhas. Música, dança, escultura, pintura, performance, narrativa histórica, crítica social, tudo acontece junto. É a Gesamtkunstwerk que Wagner sonhava, mas construída coletivamente, por milhares de mãos, durante meses, nas comunidades dos morros cariocas.
É arte que não precisa de museu pra existir. Que não precisa de silêncio nem de paredes brancas. Que acontece na rua, pro povo, com o povo, pelo povo. E que ainda assim (ou exatamente por isso) tem uma profundidade e uma sofisticação que a gente precisa respeitar e estudar e faz arder meu coração de saudades dessa energia.
Ainda bem que eu sou brasileira.
Exposição de Raphael Barontini no Palais de Tokyo em Paris
Para saber mais sobre Heitor dos Prazeres:
O desfile da Vila Isabel acontece no dia 17 de fevereiro de 2026, na terça-feira de Carnaval, na Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro.
O Instituto Moreira Salles realizou em 2024 a exposição "Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou", com curadoria que incluiu Vinicius Natal, enredista da Vila Isabel 2026.
Em 2023, Gabriel Haddad e Leonardo Bora criaram uma instalação sobre Heitor dos Prazeres no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
Fontes consultadas: Galeria do Samba (informações sobre enredos históricos), Agência Brasil (reportagens sobre Semana de Arte Moderna e enredos 2026), Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, Site Carnavalesco (coberturas especializadas), CNN Brasil (matérias sobre Vila Isabel 2026), Notícia Preta (contexto sobre Heitor dos Prazeres)