O que a gente realmente quer quando vê de verdade um quadro

As pessoas disputando um espacinho pra ver essa pintura de Georges de La Tour no Musée Jacquemart-André

Visitar museus pra mim é uma necessidade física. Não metafórica, não poética. Física mesmo. É como respirar, como dormir, como precisar de luz natural depois de dias fechada em casa. Acordo sabendo que preciso ir, que preciso estar diante de obras, que preciso ver o que seres humanos foram capazes de criar. Da Antiguidade até hoje. Essa capacidade infinita de inventar beleza me mantém inteira, me lembra de algo essencial sobre nossa espécie que é fácil esquecer quando só consumimos notícias.

Sou assinante da revista Beaux-Arts Magazine, e adoro quando ela chega na caixa de correio. Tenho muito prazer em ler no papel. Então, folheando a nova edição, vi a matéria de capa com uma nova pesquisa dizendo que 55% dos franceses querem que a arte lhes "provoque emoções positivas" acima de qualquer outra coisa. Meu primeiro pensamento foi: ai que bom que a beleza venceu!

Porque fomos ensinados a ter vergonha disso, né? Explico: virou cafona, cringe, não é hypado ver arte pela simples razão dela ser bela. 

A virada surpreendente

A pesquisa foi feita pela Ipsos e saiu agora em janeiro de 2026. Os números são cristalinos: 55% querem emoções positivas da arte. Só 26% querem ser chocados e surpreendidos. E apenas 19% esperam entender melhor o mundo através das obras.

Isso vale uma boa reflexão.

Mais da metade das pessoas quer se sentir bem quando olha pra um quadro. Quer felicidade, quer consolo, quer alívio no peito, prazer que só vem quando algo te toca de verdade. E tem alguma coisa errada com isso? Parece que sim, porque durante décadas fomos ensinados (eu incluída) que arte séria é arte que incomoda, que provoca, que cutuca nossas feridas. 

Só que em 2000, quando a Beaux Arts fez uma pesquisa parecida pro número 200 da revista (essa é a número 500), o cenário era completamente diferente. Naquela época, 23% dos franceses achavam que o artista devia "inventar novas formas de pensamento" e só 37% viam o artista como "criador de belo". A transgressão era o valor máximo. O choque era quase obrigatório.

Vinte e cinco anos depois, as ideias mudaram.

E tem mais.

Quando os neurocientistas confirmam o que a gente já sabia

A ciência finalmente está conseguindo medir o que sempre sentimos. O neurologista Pierre Lemarquis, que escreveu L'Art qui guérit (A arte que cura), mostrou que quando você está diante de uma obra que te toca, seu cérebro literalmente secreta dopamina e serotonina. As mesmas substâncias que antidepressivos tentam regular artificialmente.

Ou seja: arte é remédio mesmo.

O neurobiologista Jean-Pierre Changeux foi além. Segundo ele, a contemplação de arte não só te faz bem naquele momento. Ela modifica a estrutura do seu cérebro de forma duradoura. É uma espécie de ginástica neural. Cada vez que você para, por exemplo, diante de um Rothko, de um Matisse, de uma escultura que te emociona, você tá literalmente reconstruindo conexões cerebrais.

E olha que descoberta: 68% dos franceses acreditam que "a arte pode ajudar a curar". Não é só gente com formação em história da arte ou frequentadores assíduos de vernissages. É a população em geral que tá dizendo isso, atravessando classes sociais, níveis de educação, tudo.

Em Montpellier e em Montreal, médicos já prescrevem visitas a museus. No receituário mesmo. Junto com os remédios, junto com fisioterapia, junto com o resto do tratamento. E em Caen, na França, tem um estudo científico chamado ABC (Arte, Bem-estar, Cérebro) que está medindo em tempo real, com tecnologias portáteis, o que acontece no cérebro das pessoas quando elas visitam o museu.

Imagina abrir o resultado do exame e ver: "Paciente apresentou redução significativa de estresse após 40 minutos de visita à exposição tal".

O museu ainda ganha

Tem um dado na pesquisa que me deixa especialmente animada. Perguntaram onde as pessoas tiveram seu último "coup de coeur artistique", aquele momento de conexão profunda com uma obra. 42% disseram: no museu. Só 8% disseram nas redes sociais.

Gente, isso é realmente impressionante.

Porque vivemos numa época em que tudo é mediado pelas telas, telinhas e telonas, em que você pode ver a uber famosa Mona Lisa em alta resolução no seu celular sem sair de casa. Mas ainda assim, nada substitui a fruição de uma obra de arte. Simplesmente estar ali, diante da obra real. Ver a textura da tinta, a escala e as cores verdadeiras, a luz batendo naquele ângulo específico daquela hora do dia. Sentir o espaço ao redor, ouvir o silêncio (ou o burburinho) da sala.

O corpo diante da obra. A obra diante do corpo. Isso continua sendo insuperável.

Entre a crise e o afago

A pesquisa levanta uma questão delicada: será que estamos buscando tanto conforto na arte porque o mundo lá fora tá insuportável? A matéria diz que "face às crises que se sucedem, a arte aparece como um refúgio". E é verdade. Crise climática, crise política, crise econômica, pandemia que virou endemia, guerras e ameaças que não param.

Estamos todos exaustos.

Mas eu não acho que buscar alegria na arte seja escapismo. Acho que é o contrário. É uma forma de resistência profundamente política.

O pintor e historiador Julian Bell, em Uma Nova História da Arte, faz uma observação fundamental: desde que o ser humano começou a dar forma a materiais brutos, somos atraídos pela criação de imagens. Em todos os lugares do mundo, em todas as épocas. Não é um luxo de civilizações prósperas. É uma necessidade da espécie.

Bell mostra que a arte é "um produto de nossa experiência comum", que reflete "a condição humana e nossas preocupações culturais mais básicas". Ou seja: fazer objetos belos, criar imagens, transformar matéria em significado não é supérfluo. É constitutivo do que somos.

Por isso eu digo: buscar beleza em tempos difíceis não é fraqueza nem frivolidade. É dizer que eu não vou deixar que o horror do mundo apague minha capacidade de me emocionar. Vou continuar parando diante de um quadro e deixando ele me tocar. Vou assistir uma série na Netflix como Crônicas de Bridgerton, pelos cenários e figurinos e pensar na direção e pesquisa de arte. Vou continuar acreditando que somos capazes de criar coisas extraordinárias.

Que somos capazes de destruir, já sabemos disso muito bem. Mas também somos capazes de nos maravilhar. De esculpir mármore até parecer pele. De inventar formas que ninguém nunca tinha visto antes. De transformar dor em beleza, de transformar beleza em afago.

Arte não é luxo (mas o acesso a ela é)

Outro número que merece atenção: 67% dos franceses consideram a arte "essencial para a humanidade". Não é entretenimento, não é ornamento. É essencial. Como água, como ar, como amor.

E 82% querem mais arte no cotidiano. Onde? Nos espaços públicos (55%), nas escolas (48%) e nos hospitais (31%).

Isso não é casual. É o reconhecimento coletivo de que precisamos de arte e criatividade pra poder sobreviver. Que crianças precisam crescer cercadas de coisas belas, não só de propaganda. Que pessoas doentes se curam melhor quando têm acesso a obras que as emocionam, que lhes devolvam algo de humano e familiar no meio da frieza hospitalar.

Aqui está a questão central: arte não é luxo. Nunca foi. Como mostra Julian Bell, fazer e contemplar arte é uma constante antropológica. Mas o acesso à arte virou luxo. E isso é uma realidade mesmo.

No Brasil, a situação é ainda mais alarmante. Em 2024, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que administra 30 museus federais, teve 25% do orçamento contingenciado. Apenas 4% dos R$180 milhões foram destinados a investimentos em obras e equipamentos. Em 2025, a situação piorou: somente 3% do orçamento foi para investimentos. O resultado? O Museu do Diamante em Diamantina reduziu horários e não abre mais aos fins de semana por cortes em contratos de vigilância. O Museu Villa-Lobos no Rio está fechado desde fevereiro de 2024 após desabamento parcial da estrutura. O Museu do Ouro em Sabará fechou em 2024 por risco de desabamento.

Nas escolas, a reforma do Ensino Médio de 2017 enfraqueceu o ensino de Arte, que deixou de ser componente curricular específico e foi integrada à área de "Linguagens". Em 2024, houve uma tentativa de recuperação: o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação assinaram acordo para levar projetos artísticos às escolas de tempo integral. Mas ainda estamos longe de garantir arte para todas as crianças brasileiras.

Nos hospitais públicos, embora exista desde 2003 a Política Nacional de Humanização (HumanizaSUS), que prevê ambientes acolhedores, a implementação é desigual. Alguns hospitais estaduais desenvolvem projetos de arteterapia e musicoterapia, mas não existe uma política sistemática que garanta presença de arte visual nas paredes de todas as unidades de saúde pública do país.

Enquanto isso, quem tem dinheiro viaja pra Europa, visita museus como o Louvre, volta transformado. Quem não tem, fica sem.

Mas essa pesquisa francesa mostra um caminho possível. Mostra que quando a sociedade reconhece a arte como necessidade vital (não como luxo de elite, não como perfumaria), políticas públicas mudam. E vidas também.

E é por isso também que eu criei o Conversas sobre Arte.

O que eu quero quando paro na frente de um quadro

Voltando pra minha experiência pessoal (porque no fundo é sempre pessoal): quando entro num museu, não vou esperando apenas confronto. Claro que às vezes isso acontece, e quando acontece é potente, é necessário. Mas não é exatamente o que eu busco.

O desesperado, autorretrato de Courbet de 1845 no Musée d’Orsay

Eu vou querendo me lembrar do que somos capazes. Vou querendo essa sensação inexplicável que só acontece quando você está diante de uma obra. Vou pra poder respirar melhor. Literalmente. Meu corpo relaxa, minha respiração fica mais profunda, meus ombros descem, dentro de mim aparece uma calma.

E agora descobri que tem dopamina e serotonina envolvidas no processo. Que tem neurociência explicando, medindo, comprovando. Mas pra ser bem sincera? Eu não precisava da explicação científica pra saber que funciona. Meu corpo sempre soube.

Talvez a grande virada desses 25 anos entre uma pesquisa e outra seja essa: admitir que arte nos faz bem. Que visitamos museus em busca de alegria, de conforto, de um momento de paz num mundo caótico. E que isso não nos torna menos sofisticados, menos críticos, menos engajados com as questões urgentes do nosso tempo.

E se você pudesse ter isso também?

A missão do Conversas sobre Arte sempre foi essa: democratizar o acesso à história da arte. Tornar esse conhecimento que muda vidas disponível pra quem não pode viajar pra Europa o tempo todo, pra quem não teve formação acadêmica em arte, pra quem simplesmente quer entender melhor o que sente quando para na frente de um quadro.

Porque a história da arte não é decoreba de nomes e datas. É uma ferramenta prática de leitura do mundo. É aprender a olhar com mais profundidade, a fazer conexões que ninguém te ensinou, a descobrir artistas extraordinários que foram apagados pela historiografia oficial.

É ter acesso ao patrimônio cultural da humanidade inteira. Não só o europeu. Não só o contemporâneo. Tudo.

E agora estamos criando algo novo: o círculo - comunidade e grupo de estudos Conversas sobre Arte onde você pode aprender isso de forma estruturada, acessível e viva. Não como aula chata de faculdade. Como conversa mesmo, como troca, como descoberta coletiva.

Se você quer entender arte de um jeito que faça sentido pro seu dia a dia, que te ajude a ver melhor, que te dê ferramentas pra criar (seja você artista, designer, arquiteto ou simplesmente alguém que ama arte e beleza), vem comigo.

Vem conhecer a proposta do círculo - comunidade e grupo de estudos Conversas sobre Arte

Porque arte não é luxo. Mas o acesso ainda é.

Vamos mudar isso juntos.

Para Saber Mais

Livros: BELL, Julian. Uma Nova História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2008. LEMARQUIS, Pierre. L'Art qui guérit. Hazan, 2020.

Pesquisa: Ipsos BVA para Beaux Arts Magazine, janeiro 2026 (número 500)

Fontes consultadas:
Beaux Arts Magazine, artigo de Malika Bauwens, janeiro 2026

Próximo
Próximo

De 1862 a 2026: o que a resistência à fotografia ensina sobre IA, ética e eleições