De 1862 a 2026: o que a resistência à fotografia ensina sobre IA, ética e eleições

O quadro A Virgem adorando a hóstia, 1854 de Jean Auguste Dominique Ingres que eu fui ver no Musée d’Orsay.

Lembra que na semana passada eu mencionei que essa resistência a novas tecnologias não é nova? Que em 1862 um grupo de pintores tentou impedir que a fotografia fosse considerada arte? Pois é. Essa história me fascina porque a gente está vivendo exatamente a mesma coisa agora com a inteligência artificial.

E tem um livro do ano passado lançado pelo Centre Pompidou que começa exatamente por aí. Já falei dele em outros posts.

1862: quando a arte teve medo da máquina

Em 1862, 23 depois do nascimento do daguerreótipo em 1839, o pintor Jean-Auguste-Dominique Ingres liderou um grupo de 26 pintores numa petição à justiça francesa. O pedido era claro e direto: que a fotografia não fosse considerada arte. 

Ingres era um dos pintores mais importantes da França. Neoclássico, técnico impecável, defensor da linha, do desenho preciso, da tradição acadêmica. E de repente aparece uma máquina que faz em segundos o que um pintor levava horas, dias, semanas pra fazer: capturar a realidade com precisão.

Pra ele e pros colegas, aquilo não era arte. Era uma reprodução mecânica. Não tinha alma, não tinha o toque humano, não tinha a interpretação do artista. E principalmente: não tinha aquilo que o filósofo Walter Benjamin viria a chamar, décadas depois, de "aura".

A Cour d'Appel de Paris (o Tribunal de Recursos) negou o pedido.

A decisão foi bem interessante: o tribunal entendeu que os "desenhos fotográficos" poderiam sim ser produto do pensamento, do gosto e da inteligência do operador. Ou seja, reconheceram que havia escolha, havia decisão humana, havia criação por trás daquela máquina.

Benjamin e a perda da aura

Em 1936, quase um século depois da petição de Ingres, Walter Benjamin publica A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, um ensaio que virou fundamental pra entender o que estava em jogo naquele momento. Benjamin cunhou o conceito de "aura" pra descrever aquilo que se perde quando uma obra de arte pode ser tecnicamente reproduzida.

A aura, segundo ele, é "a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja". É o "aqui e agora" da obra de arte. É sua unicidade, sua autenticidade, sua inserção na tradição. É aquela experiência de estar diante de uma pintura original num museu, sabendo que aquele objeto é único, que foi tocado pelo artista, que tem uma história.

A fotografia foi o primeiro grande golpe nessa aura.

Porque com a fotografia, a obra de arte se emancipa, pela primeira vez na história, de sua existência parasitária ligada ao ritual. Não faz sentido falar em "fotografia original" da mesma forma que falamos em "pintura original". O negativo pode gerar infinitas cópias, todas igualmente válidas. A autenticidade, nesse caso, escapa à reprodutibilidade técnica.

Benjamin não via isso de forma pessimista. Pelo contrário. Ele entendia que a reprodutibilidade técnica democratizava o acesso à arte, que emancipava a obra de seu valor de culto e abria espaço pra um novo valor: o valor de exposição. A arte deixava de ser objeto de contemplação restrita e passava a ser acessível a todos.

A fotografia não só é considerada arte hoje como revolucionou completamente nossa forma de ver o mundo. Deu origem ao cinema. Mudou a pintura pra sempre (porque os pintores não precisavam mais ser apenas documentadores da realidade e puderam explorar outras coisas, como o impressionismo, o expressionismo, a abstração). Democratizou o acesso à imagem.

Mas na época, pra Ingres e seus colegas, aquilo era uma ameaça existencial ao que eles conheciam como arte.

Um livro importante

Essa história está logo na introdução do livro L'Art au Temps de l'IA: Générer, Critiquer, Créer, publicado pelas Éditions du Centre Pompidou em junho de 2025. É uma colaboração entre várias entidades do Centro Pompidou, com participação do IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique) e do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Dirigido por Jean-Louis Giavitto e Pierre Saint-Germier, reúne artistas, pesquisadores e curadores pra explorar essa intersecção entre arte e inteligência artificial.

E eles fazem esse paralelo histórico logo de cara justamente pra mostrar que a gente já viveu isso antes. O livro aborda arquitetura, dança, cinema, literatura, artes plásticas, fotografia, música. São ensaios de artistas e pesquisadores sobre como a IA interfere (e transforma) cada uma dessas áreas. Como ela abre novas possibilidades criativas que redefinem a função da ferramenta, que reconfiguram as noções de autor, de obra, de performance. Como surgem novos modelos de interação e co-criação entre humano e máquina.

Meu livro de cabeceira ultimamente

Mas o livro também mantém um olhar crítico crucial sobre as infraestruturas custosas, os trabalhadores precarizados nos bastidores dessa tecnologia, os vieses raciais e culturais embutidos nos algoritmos, a obsessão pela otimização que apaga o erro e a imperfeição. É um livro que não tem medo de fazer perguntas difíceis. E a gente precisa fazer essas perguntas. Urgentemente. Adoraria que ele fosse traduzido pro português e o pro inglês.

Outros tempos

Só que tem uma diferença crucial entre a fotografia de 1862 e a IA de 2026. A velocidade e a capacidade de manipulação.

Quando eu falo que temos um poder incrível nas mãos, não é só sobre criar animações bonitinhas ou fazer arte experimental. É sobre a capacidade de criar imagens tão perfeitas, tão convincentes, que as pessoas não conseguem mais distinguir o real do artificial.

E isso é muito perigoso.

Semana retrasada eu vi alguém compartilhar uma imagem gerada por IA da esposa do Nicolás Maduro, presidente/ditador deposto da Venezuela. Na imagem, ela aparecia como se tivesse apanhado, com o rosto machucado todo roxo. A imagem era tão perfeita, tão convincente, que muita gente acreditou que era real e republicou até viralizar. Mas era inteligência artificial.

Deepfake. Manipulação. Desinformação. E olha, as eleições estão chegando no Brasil. A gente vai ter que discutir isso com muita seriedade. Porque não tem mais limite técnico pra esse tipo de manipulação. Qualquer pessoa com acesso a essas ferramentas pode criar imagens falsas de políticos, de situações que nunca aconteceram, de contextos inventados.

Tudo pode acontecer: um vídeo deepfake de um candidato dizendo algo que nunca disse, uma foto manipulada de uma situação que nunca aconteceu, uma gravação de áudio fake que parece real demais.

Como é que a gente lida com isso?

A resposta não é tapar o sol com a peneira

Não sei a resposta completa. Ninguém sabe, pra ser honesta. Mas sei que fingir que não existe não resolve nada. Sei que proibir ou ter medo também não adianta (olha o que aconteceu com Ingres e a fotografia).

E saber usar essas ferramentas, entender como elas funcionam, reconhecer suas possibilidades e limitações, isso sim pode nos ajudar a ter um olhar mais crítico sobre o que vemos circular por aí. É por isso que eu uso. É por isso que eu experimento. É por isso que eu compartilho.

Porque a questão não é se vamos usar ou não IA. A questão é como vamos usar, com consciência e espírito crítico.

As ferramentas

Então, voltando pro prático: como é que funciona no meu dia a dia?

Eu uso principalmente o ChatGPT e o Claude (ambos têm versões gratuitas) pra pesquisa, desenvolvimento de ideias, roteiros, textos. São as LLMs (Large Language Models) que me ajudam a pensar, a organizar informação, a explorar caminhos. Mas tem outras maravilhosas como o Manus, o Gemini e o Genspark.

Por exemplo, o roteiro da Lucy and the Robots foi desenvolvido no ChatGPT. Eu dei a ideia base, a IA me ajudou a estruturar a narrativa, eu fui ajustando, pedindo mudanças, até chegar onde eu queria. É uma conversa.

Pra produção de imagens, uso o MidJourney (pago), o FreePik (tem versão paga e gratuita) e o Higgsfield (tem créditos gratuitos diários e versão paga). Cada um tem suas características, seus pontos fortes. O MidJourney é incrível pra criar personagens e estilos específicos, durante um tempo foi a ferramenta mais poderosa pra geração de imagens. O Higgsfield é ótimo pra animação porque reúne vários modelos em uma plataforma só.

Todas essas ferramentas têm versões de teste gratuitas. Você pode (e deve!) experimentar pra ver qual se encaixa melhor no seu processo criativo. Porque sim, cada pessoa vai desenvolver seu próprio workflow.

E aí entra o Blotato

Mas a grande descoberta recente, a ferramenta que realmente transformou minha produção de conteúdo, foi o Blotato. Na boa, eu não estou exagerando quando digo que mudou minha forma de trabalhar. O Blotato é uma plataforma de produção de conteúdo criada pela Sabrina Ramonov que me ajudou a ter consistência e a publicar em múltiplas redes ao mesmo tempo: Facebook, LinkedIn, e agora adicionei o TikTok que vou começar a testar.

A Sabrina criou essa ferramenta pra resolver o próprio problema dela de produção de conteúdo. E não tem equipe por trás, gente. É ela mesma que responde pessoalmente qualquer dúvida dos clientes. Isso é raro demais hoje em dia.

Olha, vou ser honesta: não é tão fácil quanto parece. Acho que a ferramenta ainda pode trazer melhorias na experiência do usuário. E eu sinto que ainda não uso todo o potencial dela. Mas mesmo assim, não encontrei nada mais confiável pra programação de posts. É pago, mas tem trial version pra quem quer testar.

E o que fez a diferença pra mim foi poder integrar tudo num fluxo de trabalho consistente.

Meu workflow de conteúdo

Deixa eu contar como funciona meu processo hoje, do começo ao fim.

Tudo começa no Claude. Criei um assistente editorial nele, com todas as diretrizes do Conversas sobre Arte, meu tom de voz, minha abordagem. É meu parceiro de brainstorming e estruturação de ideias.

Depois defino os formatos: vai ser um post longo? Um carrossel? Um vídeo curto? Dependendo do tema, escolho o melhor pra cada mensagem que eu quero passar.

Aí vou escrever os posts e escolher ou criar as imagens. Uso o MidJourney pra gerar imagens originais quando preciso, ou o banco de imagens do FreePik quando quero algo mais rápido.

Com tudo pronto pra semana, jogo o carrossel num template que eu criei no Canva. Se for um reels, gravo a voz no celular e edito as imagens no Capcut. Mantenho uma identidade visual consistente, que é importante pro reconhecimento do Conversas sobre Arte. E finalmente, programo tudo no Blotato, clonando os posts pras diferentes plataformas e ajustando quando necessário.

Parece simples assim descrito, mas levei meses pra chegar nesse fluxo. E ainda estou ajustando, aprendendo, melhorando. Porque a verdade é essa: minha aprendizagem é diária. Faço parte de comunidades de IA, troco experiências com outras pessoas que também estão nessa jornada, testo coisas novas o tempo todo. É um processo vivo.

O paradoxo continua

Voltando ao paradoxo que eu mencionei na semana passada. Quando eu uso IA pra criar obras como Artifício, quando eu questiono o impacto ambiental enquanto uso a própria tecnologia que causa impacto ambiental, eu estou sendo simplesmente honesta. Precisamos saber (e criticar, discutir, questionar!) a quantidade de água e energia elétrica usada nesses datacenters gigantescos. Precisamos pensar em soluções. Precisamos botar a boca no trombone sobre ética, sobre manipulação, sobre os limites entre criação e falsificação.

Precisamos exigir transparência das Big Techs. Precisamos exigir clareza dos nossos governantes. Precisamos educar as pessoas pra reconhecer deepfakes e conteúdo manipulado. Mas também precisamos experimentar, criar, explorar as possibilidades.

Como Giulio Carlo Argan já dizia: a arte é o campo onde a gente busca reconciliar-se com o mundo que transformamos.

O que 1862 nos ensina

Porque se Ingres tivesse conseguido barrar a fotografia em 1862, a gente poderia ter perdido décadas de produção visual incrível. A fotografia não matou a pintura. Pelo contrário, libertou a pintura pra ser outra coisa. A IA não vai matar a arte. Vai nos forçar a repensar o que é criar, o que é ser autor, o que é original, o que é real. E isso me parece bem necessário nesse momento da história. Inclusive vai haver uma maior valorização do feito à mão.

Então, o que eu quero dizer com tudo isso? Não tenha medo. Experimente essas ferramentas. Elas podem sim transformar sua criação, sua maneira de trabalhar, sua forma de pensar. Não é uma adaptação simples, não vou mentir. Mas uma vez que você começa a colocar no seu dia a dia, as possibilidades se abrem de um jeito impressionante.

Questione enquanto usa. Se informe sobre sobre a ética, sobre a manipulação de imagens, sobre o que está sendo construído e desconstruído nesse processo. Eduque-se pra reconhecer deepfakes. Compartilhe informação. Exija transparência.

Use a ferramenta pra revelar suas próprias contradições. Porque a gente está construindo isso juntos. E quanto mais gente consciente usando e questionando, melhor vai ser pra todo mundo. Se você perdeu a primeira parte desse texto onde eu conto como criei um desenho animado em duas horas e falo sobre meu trabalho Artifício, é aqui. E se você decidir experimentar alguma dessas ferramentas de IA, me conta. Quero saber das suas descobertas, das suas frustrações, dos seus momentos de eureka. A nossa conversa continua.

Para Saber Mais

Livro: GIAVITTO, Jean-Louis e SAINT-GERMIER, Pierre (org.). L'Art au Temps de l'IA: Générer, Critiquer, Créer. Paris: Éditions du Centre Pompidou, 2025.

Ferramentas mencionadas:

  • ChatGPT (versão gratuita disponível)

  • Claude (versão gratuita disponível): https://claude.ai

  • MidJourney (pago): https://midjourney.com

  • FreePik (versões gratuita e paga): https://freepik.com

  • Higgsfield (créditos gratuitos diários e versão paga): https://higgsfield.ai

  • Blotato (trial gratuito e versão paga, criado por Sabrina Ramonov)

Fontes consultadas: L'Art au Temps de l'IA: Générer, Critiquer, Créer (Éditions du Centre Pompidou, 2025), site do IRCAM sobre o livro

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