Lucy, robôs e cadeiras de plástico: criar com IA sem perder o senso crítico
Lucy, a personagem principal do meu primeiro filminho animado
No final do ano passado, resolvi brincar com uma coisa nova. Passei duas horas fazendo algo que anos atrás seria impossível: criei um desenho animado completo chamado Lucy and the Robots. A história? Uma mulher, dona de casa meio anos 50, exausta, frustrada, cansada de tudo. Até que ela tem uma ideia brilhante: criar robôs que a ajudem nas tarefas domésticas. Ela desenha os projetos animadíssima e vai pra oficina construir seus robôs. No começo dá tudo errado, eles não respondem aos comandos, fazem uma bagunça enorme na cozinha. Ela continua insisntindo na oficina até que, finalmente, acha a solução. Corta a cena. Os robôs funcionam lindamente, ajudam nas tarefas e ela fica impressionada com o resultado. E o final? Agora ela tem tempo pra dançar com o marido dela e se divertir. The end! Assista ao desenho no fim desse texto.
Não, eu não sou animadora. Não tenho uma equipe de produção. Não gastei meses nem dinheiro nisso.
Eu só usei inteligência artificial. E olha, se você acompanha o que eu faço aqui no Conversas sobre Arte, isso não deve ser surpresa pra você. Sou uma usuária bastante ativa de IA. Não tenho medo de experimentar, de testar, de errar e tentar de novo. Uso essas ferramentas no meu dia a dia, na minha produção de conteúdo, na minha pesquisa, na minha criação artística.
Mas isso não significa que eu não questione.
Do personagem à animação: como funciona na prática
O processo foi mais ou menos assim: criei o personagem da Lucy no Midjourney usando comandos específicos pra gerar um estilo que ficasse entre Pixar e desenho animado dos anos 50. O Midjourney criou algumas imagens e eu fui ajustando até chegar na minha Lucy, como eu a imaginava, pra história que eu tinha roteirizado no ChatGPT.
E foi aí que entrou o Higgsfield, uma plataforma que reúne vários modelos de criação de imagem e animação em um só lugar: modelos do Google, da Open AI, e muitos outros. Tem créditos grátis diariamente, o que é ótimo pra quem quer experimentar. Foi lá que eu animei cada cena, trabalhando com posicionamento de câmera, de movimento, luz. A partir dessa escolha também criei as emoções e expressões faciais: Lucy exausta, Lucy tendo a ideia, Lucy na oficina, Lucy com raiva, Lucy tendo o momento eureka, Lucy feliz dançando. Bom, eu ainda em processo de aprendizagem desse universo. Ficou perfeito? Não, não sei direito ainda uma porção de coisas, mas acho que ficou decente pra uma primeira tentativa. Foi um processo super gostoso de realizar.
Duas horas. Do zero ao vídeo pronto, com um minuto e vinte e cinco segundos de duração, música, imagens animadas, um pouco de texto em inglês criado pelos próprios modelos de IA (usei principalmente Google VEO3 e o Kling). Depois fui pro CapCut adicionar uns áudios e finalizar a edição.
É impressionante pensar no poder que a gente tem nas mãos hoje.
Finalmente consistência
Sabe qual foi a maior descoberta técnica desse processo todo? A consistência dos personagens. Durante muito tempo, criar uma narrativa visual com IA era frustrante. Você gerava uma imagem linda de um personagem em uma cena e, na cena seguinte, a IA mudava completamente os traços dele. Olhos diferentes, cabelo diferente, proporções diferentes. Era impossível contar uma história coerente. Isso mudou há pouco tempo.
Plataformas como o Higgsfield, o Freepik e os novos modelos conseguiram finalmente resolver esse problema. Agora você pode criar um personagem e mantê-lo consistente em várias expressões faciais, em vários ângulos, em várias situações. Já existe um mercado de influencers digitais. A Lucy do meu curta é a mesma Lucy do começo ao fim, em todos os momentos da história. Isso muda o jogo pra quem quer criar narrativas visuais.
Artifício: quando uso IA pra questionar a própria IA
E tem mais.
Esse não é meu primeiro trabalho artístico com inteligência artificial. Na verdade, já fiz duas exposições de arte no Brasil usando a IA como ferramenta criativa. A primeira delas, Entre o Pitoresco e o Sublime: a Natureza do Eu, aconteceu em Belém na Casa Aninga durante a COP30. A outra, Ambientes Inesperados: Vivência e Memória, ainda está rolando em São Paulo, no Ateliê Casa 1, até o dia 31 de janeiro, com curadoria de Márcio Harum e Nancy Betts. Onde nosso coletivo Artistas Clã Destinos e o grupo Trilha se juntaram pra essa linda coletiva.
O trabalho que apresentei se chama Artifício, composto por cinco imagens de cadeiras criadas com IA. Cadeiras de plástico, aquelas banais, descartáveis, que todo mundo conhece. Só que essas cadeiras aparecem em paisagens de rejeitos, de lixo, de devastação.
O paradoxo é proposital.
Eu uso inteligência artificial (que consome energia, água, recursos naturais nos datacenters gigantescos que guardam toda essa memória computacional) pra questionar justamente o impacto ambiental do nosso modelo de produção e consumo. A cadeira de plástico vira um ícone paradoxal entre o sagrado e o descartável.
É uma contradição? Sim.
Mas é justamente a partir da consciência e entendimento desse uso que podemos questionar, pedir soluções aos nossos governantes e às Big Techs. O grande lance não é fingir que a tecnologia não existe. É usá-la criticamente, conscientemente, sabendo o que está em jogo. Como Giulio Carlo Argan já dizia quando refletia sobre o artifício e a paisagem moderna: a arte é o campo onde a gente busca reconciliar-se com o mundo que transformamos.
E essa história se repete
Sabe o que mais me fascina nisso tudo? É que houve exatamente essa mesma resistência antes.
Em 1862, um grupo de 26 pintores (incluindo nomes importantes como Ingres) tentou impedir que a fotografia fosse considerada arte. Imagina? Hoje a fotografia não só é arte como revolucionou completamente nossa forma de ver o mundo, deu origem ao cinema, mudou a pintura pra sempre.
Mas na semana que vem eu quero falar mais sobre isso. Sobre essa história que se repete, sobre as questões éticas urgentes que a IA levanta (deepfake, manipulação de imagens, eleições), sobre as ferramentas que eu uso no meu dia a dia e como você também pode experimentar.
Porque tem muita coisa pra discutir. E a gente precisa discutir isso com urgência.
Por enquanto, fica o convite: se você estiver em São Paulo, passa lá no Ateliê Casa 1 até o dia 31 de janeiro pra ver Artifício e a exposição Ambientes Inesperados: Vivência e Memória. Visitas por agendamento. Vem ver essas cadeiras de plástico em paisagens de devastação e pensar junto sobre esse paradoxo que a gente está vivendo.
E se você já usa IA ou está pensando em experimentar, me conta. Quero saber das suas experiências, das suas dúvidas, dos seus receios.
Semana que vem eu volto aqui pra falar sobre Ingres, sobre deepfakes e eleições, e vou revelar meu workflow completo de produção de conteúdo com IA. Incluindo a ferramenta que adiantou demais minha vida.
Até lá!
Para Saber Mais
Exposição:
Ambientes Inesperados: Vivência e Memória
Ateliê Casa 1
Rua José Maria Lisboa, 873 | CASA 1, São Paulo
Até 31 de janeiro de 2025
Visitas por agendamento
Curadoria: Márcio Harum e Nancy Betts
Ferramentas que usei para criar Artifício e Lucy and the Robots:
ChatGPT (roteiro)
Midjourney (criação do personagem)
Higgsfield (animação)
CapCut (edição final)