Renoir, Reinoso e a arte de aprender a olhar de novo
Bal du moulin de la Galette (1876)
Na terça-feira fui ao Musée d'Orsay ver a exposição Renoir et l'amour. La modernité heureuse, e no fim de semana me peguei revisitando a obra de Pablo Reinoso, um artista que acompanho há muitos anos. São dois artistas separados por mais de um século, com propostas completamente distintas. Mas saí dos dois encontros pensando na mesma coisa: o quanto a gente ainda tem a aprender sobre olhar.
Tem mais: a primavera aqui em Paris está fazendo aquilo que sempre faz com o nosso humor. A luz muda de qualidade, os dias ficam mais longos, e de repente a gente tem disposição pra coisas que o inverno ia adiando. Ir ao museu num dia de semana. Revisitar um artista que merecia mais tempo. Prestar atenção no que está diante dos olhos.
Renoir e o vermelho que dirige o olhar
A obra de Renoir é, antes de mais nada, uma obra de luz. A paleta é clara, pastel, construída com cores que se fundem umas nas outras. A atmosfera é envolvente, quente, e as pinceladas às vezes fluidas e esboçadas criam uma unidade que parece orgânica.
É dentro dessa leveza toda que o vermelho aparece, e é aí que a genialidade da composição fica evidente. Renoir o usa como ponto de atenção, como guia do olhar. Uma faixa de vermelho aqui, um detalhe de tecido ali, um chapéu ao fundo. E o olhar obedece: vai de ponto em ponto, atravessa a composição seguindo esse fio invisível. As conversas nas telas podem parecer silenciosas ou barulhentas dependendo de onde você entra, e o vermelho é o que decide a porta de entrada. Simplesmente genial.
Danse à la ville (1883)
A curadoria de Paul Perrin se concentra nos vinte primeiros anos da carreira de Renoir, de 1865 a 1885, reunindo cerca de cinquenta obras pela primeira vez desde 1985, quando houve a última grande retrospectiva em Paris. O período é preciso: é quando Renoir participa da emergência da pintura impressionista ao lado de Monet, Manet, Degas e Caillebotte, e quando ele cria o que vai se tornar sua iconografia mais reconhecível. Casais livres, jantares coletivos, bailes populares, conversas à beira do rio.
Uma expografia que te coloca dentro da obra
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a expografia. Diante das obras principais, a equipe do museu criou uma espécie de banco que se transforma em balcão, com todas as informações de leitura visual posicionadas ali: os planos da composição, a sucessão de cores, a identificação das figuras representadas. Quem são as pessoas nos quadros. O que cada elemento está fazendo ali.
Isso cria uma experiência muito particular. Você senta, tem a obra à frente, tem as pistas de leitura ao alcance, e ao mesmo tempo pode observar como as outras pessoas observam. O museu vira um lugar de atenção compartilhada. É didático no melhor sentido possível: não simplifica, mas abre portas pra quem não sabe por onde entrar.
A exposição também fala muito sobre os modelos de Renoir. Eu não sabia, por exemplo, que ele pessoalmente negou dois filhos que teve com Lise Tréhot, sua companheira e modelo de referência nos primeiros anos, entre 1865 e 1872. Uma relação considerada ilegítima pela moral burguesa da época, e que terminou sem que os filhos fossem reconhecidos. Esse dado transforma a leitura das obras do período: aquelas cenas de camaradagem e liberdade eram também a vida que Renoir estava vivendo, com tudo que ela carregava de irregularidade e rejeição social.
Um cronista que escolheu a alegria como argumento
A exposição levanta uma questão que acho importante: por que a modernidade seria obrigada a ser melancólica?
Renoir foi muitas vezes considerado um pintor "fácil", exatamente porque escolheu representar cenas de prazer coletivo. Guinguettes, bailes, camaradagem, casais. A crítica de arte do século XIX e boa parte do XX tratou isso como leveza suspeita, como se a seriedade estética exigisse sombra e ironia.
O que a curadoria mostra é outra leitura, e uma bem mais rica. Renoir vivia numa Paris marcada por divisões de classe violentas, pelo trauma da derrota de 1870 e pela guerra civil da Comuna. Nesse contexto, pintar a alegria das guinguettes populares, a liberdade dos encontros informais, a igualdade nos gestos entre homens e mulheres era, ao mesmo tempo, uma posição estética e uma afirmação sobre como o mundo poderia ser.
Tem uma frase que ele deixou escrita e que ficou comigo depois da visita: "Je sais bien qu'il est difficile de faire admettre qu'une peinture puisse être de la très grande peinture en restant joyeuse." Ele sabia que seria difícil convencer alguém de que uma pintura poderia ser muito boa e continuar alegre. Passou mais de um século e essa questão ainda não está completamente resolvida.
Dois quadros ocupam um lugar especialmente destacado na exposição. O Bal du moulin de la Galette (1876), que pertence às coleções do Orsay e completa 150 anos esse ano, foi o ponto de partida de toda a curadoria. E o Déjeuner des canotiers (1880-1881), emprestado de forma excepcional pela Phillips Collection de Washington, raramente aparece em Paris. Os dois juntos, pela primeira vez, são um presente.
E tem as danças. Renoir pintou casais dançando com uma intimidade que não tem nada de óbvio. Na Danse à la ville (1883), um dos últimos quadros do percurso, a figura feminina é Suzanne Valadon, que à época era modelo e acrobata, e que viria a se tornar ela mesma uma pintora importante. É uma tela de paleta fria, onde os reflexos mauves da roupa de cetim aparecem sob a luz artificial. O contraste com as cenas de exterior é total, e justamente aí está a sofisticação: Renoir não pinta sempre da mesma maneira. A luz que ele busca muda conforme a situação que quer representar.
Obra da série “Thoneteando” de Pablo Reinoso
Reinoso e a cadeira que recusou a função
No fim de semana fui revisitar a obra de Pablo Reinoso, um artista franco-argentino que vive em Paris desde 1978 e que acompanho há muitos e muitos anos. É um desses artistas que fica mais interessante a cada vez que você volta pra ele.
Reinoso trabalha na fronteira entre arte e design, e desde os anos 2000 tem uma obsessão específica com o objeto do assento. A série que mais me interessa é a que parte da cadeira Thonet, o primeiro objeto de design industrial da história, criado pelo marceneiro germano-austríaco Michael Thonet em 1859. Reinoso começou a trabalhar com ela em 2004, e em 2006 criou Thoneteando, uma peça que demonstra com uma ironia muito bem-humorada o paradoxo de desmontar e inutilizar um objeto funcional.
O que acontece nas obras da série é que a cadeira deixa de ser cadeira. Os elementos são retorcidos, alongados, multiplicados, levados a um ponto em que a função original desaparece e aparece outra coisa. A madeira cresce. Os encaixes se libertam. O objeto que existia pra sentar começa a querer outra coisa.
(Pra quem me acompanha há mais tempo: a cadeira como pesquisa artística é um tema recorrente aqui. Não por acaso.)
O que me interessa tanto nessa distorção é que ela não é violenta. Reinoso não quebra a cadeira. Ele a leva longe de si mesma com uma gentileza formal que é quase desconcertante. Você olha e reconhece o objeto, e ao mesmo tempo não consegue mais vê-lo como antes. O reconhecimento e o estranhamento acontecem juntos, sem que um anule o outro.
O que une um pintor do século XIX e um escultor argentino
Pensando nos dois encontros ao longo da semana, me veio algo que talvez seja óbvio mas que vale dizer: Renoir e Reinoso compartilham, apesar de tudo que os separa, uma certa recusa de deixar o olhar descansar no óbvio.
Renoir pega cenas que poderiam ser ilustrações bonitas e as transforma em composições com argumento. Reinoso pega objetos que poderiam ser design e os transforma em perguntas. Os dois exigem que você pare, que olhe mais de uma vez, que se pergunte o que está de fato vendo.
E tem algo na luz de março que cria condição pra isso acontecer. Essa qualidade de luz mais inclinada, mais dourada, que vai chegando aos poucos com a mudança de estação. A gente começa a sair mais, a notar coisas que o inverno tapava. A primavera não ensina a olhar, mas abre espaço pra que o olhar aconteça.
Saí do Orsay num dia ensolarado com a cabeça cheia. Saí do encontro com a obra de Reinoso pensando em como os objetos guardam ideias que a gente ainda não formulou. São duas obras muito diferentes, mas as duas me pediram a mesma coisa: mais tempo, mais atenção, mais disposição pra ser surpreendida pelo que já estava ali.
Isso, pra mim, é o que a arte faz de melhor. Tornar visível o que já estava presente e a gente ainda não tinha aprendido a ver.
Se Paris está nos seus planos nesse segundo trimestre, o Tempo de Olhar tem o Orsay e outros 49 museus organizados com essa mesma atenção.
Informações práticas
Renoir et l'amour. La modernité heureuse (1865-1885)
Musée d'Orsay 17 de março a 19 de julho de 2026 1, rue de la Légion d'Honneur, 75007 Paris
Terça a domingo, 9h30 às 18h (quinta até 21h45) Fechado às segundas, 1 de maio e 25 de dezembro
Reserva de horário fortemente recomendada
Fontes consultadas: Musée d'Orsay, dossier de presse "Renoir et l'amour. La modernité heureuse" (2026); Musée d'Orsay, ficha da obra "Danse à la ville"; Waddington Custot Gallery, notas biográficas sobre Pablo Reinoso; Carpenters Workshop Gallery, texto curatorial sobre a série Thonet