Por que 2026 promete ser um dos melhores anos de arte em Paris
Martin Parr, Blue Grotto, Capri, Italy, 2014. © Martin Parr / Magnum Photos.
Enquanto ainda estamos fechando 2025, a programação de 2026 já me deixou com água na boca. De Monet a Nan Goldin, de Hilma af Klint a Matisse, a cidade vai explodir de exposições que a gente simplesmente não pode perder. Vem comigo descobrir o que te espera e já começar a planejar sua agenda cultural com o meu Guia Tempo de Olhar.
Sabe aquela sensação de folhear um calendário e já ir contando os dias que você não quer perder de jeito nenhum? É exatamente assim que me sinto quando olho pra programação das grandes exposições de 2026 em Paris. Depois de tanta coisa maravilhosa em 2025, já estava ansiosa pra ver o que vem por aí. E quando a Beaux Arts chegou na minha casa com o dossiê especial, eu simplesmente não consegui parar de ler e fazer anotações.
Porque tem coisa que a gente não pode deixar passar. E 2026 é um daqueles anos em que você olha e pensa: vai ser impossível escolher. Isso tudo porque ainda tem a Bienal de Veneza. Mas vamos nos concentrar aqui em Paris.
Quando os mestres voltam pra nos lembrar por quê são mestres
Vou começar pelo que mais me deixou empolgada: Matisse. No Grand Palais, de 24 de março a 26 de julho, a exposição Matisse 1941-1954 vai reunir mais de 230 obras do período mais livre e revolucionário do artista. É quando ele, já idoso e acamado depois de uma cirurgia, inventa os papiers découpés (papéis cortados) e, dessa forma, transforma papel, tesoura e guache em pura poesia visual. Ele mesmo chamava isso de "desenhar com a tesoura" ou "pintar dentro da cor".
Imagina? Ele já tinha revolucionado a pintura com os fauvistas e decidiu se reinventar completamente aos 70 anos. Serão expostos os Nus Azuis, o álbum Jazz, livros ilustrados, têxteis, vitrais. Eu sou suspeita pra falar pois sou pirada por Matisse, mas é o tipo de exposição que me deixa animadíssima!
E tem mais: ainda no Grand Palais, de 6 de maio a 30 de agosto, Hilma af Klint finalmente ganha o reconhecimento que merece em Paris. Ela começou a pintar abstrações em 1906, muito antes de Kandinsky, mas pediu que suas obras só fossem mostradas 20 anos depois da sua morte porque sabia que estava muito à frente do seu tempo. A exposição vai mostrar pela primeira vez na França o ciclo completo Peintures du Temple, que é simplesmente monumental. Formas orgânicas, cores vibrantes, uma busca espiritual por uma verdade universal que une o feminino e o masculino, o espiritual e o material.
Um século da morte de Monet
2026 marca o centenário da morte de Claude Monet, e a Normandia toda vai celebrar o mestre do impressionismo. No Musée des Impressionnismes, em Giverny, a exposição Avant les nymphéas (27 de março a 5 de julho) foca nos primeiros anos do artista na casa que depois ele compraria, entre 1883 e 1890. Antes de se concentrar no jardim e nos nenúfares, Monet explorou o vilarejo e os arredores com uma atenção obsessiva aos efeitos de luz e às variações atmosféricas.
Rodin encontra Michelangelo no Louvre
De 15 de abril a 20 de julho, o Musée du Louvre vai fazer um encontro que eu nunca imaginei ver: Rodin e Michelangelo cara a cara. Os dois gigantes da escultura, os dois que, em suas épocas, transformaram o mármore em drama, movimento, em terribilità (a expressão italiana que define a força avassaladora das obras de Michelangelo).
Rodin foi pra Florença em 1876 especificamente estudar Michelangelo. Ele passou semanas observando, desenhando, tentando entender como o mestre da Renascença conseguia fazer pedra parecer carne, dor, desejo. Essa confrontação promete ser das coisas mais potentes do ano.
O Douanier Rousseau sai da coleção Barnes e Renoir sob um novo olhar
No Musée de l'Orangerie, de 25 de março a 20 de julho, acontece algo raro: obras da Fundação Barnes finalmente viajam pela Europa. A exposição Henri Rousseau: L'ambition de la peinture vai reunir três obras-primas que quase nunca são vistas juntas: La Bohémienne endormie (empréstimo excepcional do MoMA de Nova York), Mauvaise surprise (da Barnes) e La Charmeuse de serpents (do Musée d'Orsay).
É a história de um funcionário da alfândega que aos 49 anos decide que vai viver da sua pintura. E consegue. Contra todas as probabilidades, Henri Rousseau cria um universo próprio, onírico, que vai inspirar os surrealistas e continua fascinando até hoje. Vi uma retrospectiva maravilhosa no Musée d'Orsay em 2016.
Falando em D'Orsay, confesso que fiquei curiosa com a proposta do museu para Renoir. Renoir et l'amour (17 de março a 19 de julho) vai olhar sua obra pelo ângulo do amor como "força fundamental que liga os seres entre si e à natureza".
A fotografia que não desvia o olhar
Martin Parr morreu em dezembro, mas a exposição que ele preparou pro Jeu de Paume (30 de janeiro a 24 de maio) vai ser como um testamento artístico. Global Warning não é só sobre aquecimento climático, fala também dos 50 anos em que ele documentou as consequências da ação humana no planeta: turismo de massa, consumismo desenfreado, a praia artificial lotada, os selfies vazios.
Nan Goldin, Jeune amour, 2024
O humor dele, à primeira vista, é de uma ironia mordaz, mas quando você olha o conjunto, deixa de ser engraçado e vira perturbador. Parr nunca desviou seu olhar e deixou uma obra tão importante que a gente não deveria desviar também.
No Grand Palais, de 18 de março a 21 de junho, Nan Goldin volta a Paris com This Will Not End Well. Ela é tão cineasta quanto fotógrafa, e a expo vai mostrar principalmente o trabalho em vídeo e projeções: The Ballad of Sexual Dependency, o famoso Memory Lost sobre a crise dos opióides nos Estados Unidos, e a nova criação Sirens. É o tipo de exposição que provavelmente vai te arrancar lágrimas, porque é de uma sinceridade brutal sobre viver, sobreviver, perder, resistir. Eu tive essa reação com a exposição da Sophie Calle no Musée Picasso, aos prantos.
O Musée d'Art Moderne de Paris vai dedicar uma grande retrospectiva para Lee Miller (3 de abril a 26 de julho), em parceria com a Tate Britain e o Art Institute de Chicago. São 250 obras que mostram a trajetória dela: modelo, musa surrealista, fotógrafa de moda e correspondente de guerra. Lee Miller é uma dessas figuras que a História da Arte tentou reduzir à "musa de Man Ray", mas que foi muito mais complexa e corajosa do que isso. Tem um ótimo filme de 2023 sobre ela com Kate Winslet.
Tesouros escondidos e descobertas surpreendentes
O Musée de Cluny vai dedicar uma exposição inteira aos licornes, unicórnios em francês, (13 de março a 12 de julho). Não, não é só pra fãs de unicórnios fofos. O animal fantástico que a gente conhece da famosa Dame à la licorne tem uma história muito mais complexa: símbolo de inocência e castidade, mas também de erotismo potente, criatura que aparece desde a Antiguidade até a China, povoando manuscritos medievais e bestiários.
A mostra, coproduzida com o Museum Barberini de Potsdam, vai reunir cerca de 100 obras muito diversas, incluindo criações contemporâneas. É o tipo de tema que atravessa várias culturas e milênios.
E olha essa: o Institut du Monde Arabe (24 de março a 23 de agosto) vai nos levar pra Byblos, o porto mais antigo do mundo ainda em atividade. São 9.000 anos de história, gente! A cidade foi explorada por Ernest Renan no século XIX e continua revelando segredos: em 2019 descobriram uma necrópole intacta da Idade do Bronze.
A exposição vai mostrar como uma simples comunidade de pescadores se transformou na maior plataforma comercial da Antiguidade, exportando cedro pro Egito e desenvolvendo toda uma organização social e econômica sofisticadíssima. Com empréstimos generosos de instituições libanesas, a gente vai poder entender a cidade fenícia que foi berço do alfabeto.
Calder dança de novo
A Fondation Louis Vuitton (15 de abril a 16 de agosto) traz de volta Alexander Calder e seus móbiles que revolucionaram a escultura. Danças de ferro e formas abstratas que se movem com o ar, criando coreografias infinitas de sombras e cores.
Calder tinha um espírito fantasque, como os franceses dizem, uma mistura de brincadeira com genialidade que transformou a escultura em algo vivo, em movimento perpétuo. A retrospectiva vai mostrar desde os móbiles delicados até as esculturas gigantes que ocupam espaços públicos no mundo inteiro.
Clair-obscur na Bourse de Commerce
Louis Soutter, Crépuscule du gangster, 1937–1942
De 4 de março a 31 de agosto, a Bourse de Commerce da Pinault Collection vai mergulhar no claro-escuro. E não é só sobre a técnica do Caravaggio não. É sobre o clair-obscur como linguagem visual metafísica, sobre artistas contemporâneos que continuam usando a tensão entre luz e sombra pra tentar entender as trevas do nosso tempo. Já me animei com esse tipo de curadoria e associações.
O centro da exposição vai ser o filme Camata de Pierre Huyghe, que transforma a rotunda num ritual hipnótico: no deserto do Atacama, no Chile, um robô xamânico cuida de um esqueleto abandonado às estrelas, ao cosmos. Até hoje penso na exposição desse artista em Veneza e o quanto que eu saí de lá completamente impressionada. Laura Lamiel vai criar uma série de obras especialmente para as 24 vitrines que cercam o domo.
E tem mais, muito mais
A Philharmonie de Paris vai dedicar uma exposição inteira à música dos videogames (3 de abril de 2026 a 10 de janeiro de 2027). De Pong a League of Legends, mais de 20 instalações interativas pra gente entender meio século de inovação sonora. O visitante vira jogador, explorando as conexões entre tecnologia, criação musical e cultura pop. E eu, que amo tecnologia, já gostei.
O Musée du Quai Branly vai celebrar a moda africana contemporânea (31 de março a 12 de julho), colocando criadores de Lagos, Dakar e Joanesburgo em diálogo com as coleções têxteis do museu.
E ainda tem Mary Cassatt no Musée d'Orsay (outubro de 2026 a fevereiro de 2027), a impressionista americana que fez de Paris seu território de criação e capturou a intimidade entre mulheres e crianças com uma ternura e uma modernidade que a gente ainda precisa reconhecer melhor.
Ainda tem muito mais
Olha, eu podia ficar aqui listando exposição atrás de exposição (e olha que nem mencionei tudo), mas o que eu quero mesmo te dizer é outra coisa: planejar um ano cultural não é apenas conseguir ver tudo. É escolher o que faz sentido pra você, o que te chama, o que você não quer perder.
É entender que viver cercado de arte não é luxo, é necessidade. É criar pontos de encontro com a beleza, com a complexidade, com as perguntas difíceis que só a arte consegue fazer de um jeito que a gente aguenta olhar de frente.
2026 vai ser desses anos em que Paris transborda. E a gente pode escolher transbordar junto, ou deixar passar. Vocês sabem, eu já escolhi.
Planeje seu ano cultural
Você acha muita informação sobre esses museus no Guia Tempo de Olhar, que eu criei justamente pra isso: pra você não precisar ficar fuçando site por site, pra ter tudo organizado com dicas práticas de como visitar, quanto custa, como chegar.
O guia existe pra isso: pra você decidir o que você realmente quer ver. Planejar seus fins de semana ou suas férias. A ideia é transformar sua agenda em algo rico, cheio de descobertas, de beleza e de arte.
Acesse o Guia Tempo de Olhar aqui
Fontes consultadas: Beaux Arts Magazine, Paris je t'aime, Visit Paris Region, Sortiraparis, L'Officiel des Spectacles, Timeout Paris, Still in Paris