Roubo, Vazamentos e Greve: Os Bastidores da Crise no Louvre

A beleza do museu esconde os verdadeiros problemas

Sabe aquele sentimento de ver alguém que você ama profundamente passando por um momento difícil? É assim que me sinto toda vez que leio as notícias recentes sobre o Louvre. Este lugar que habita meu coração desde sempre, que visitei inúmeras vezes que me inspirou a criar o Tempo de Olhar, tanto que a capa do guia é o museu. Que falo e escrevo sempre com o entusiasmo de quem entra nele como se fosse sempre a primeira vez, está atravessando uma tempestade daquelas de criar tsunami.

E quando digo tempestade, não estou exagerando. Estou falando de um roubo espetacular digno de Arsène Lupin, vazamentos que danificaram centenas de obras, funcionários em greve e uma infraestrutura que desmorona aos poucos. O museu mais visitado do mundo está pedindo socorro. E precisamos prestar atenção.

O roubo que expôs tudo

a grua do roubo cinematográfico do Louvre

Se no século XX o roubo da Mona Lisa catapultou a obra-prima de Da Vinci à categoria de pintura mais famosa do mundo, em 19 de outubro de 2025, um domingo como outro qualquer, o mundo assistiu atônito a um novo assalto cinematográfico. Quatro homens, em apenas sete minutos, invadiram a Galeria de Apolo usando um caminhão com uma grua estacionado em plena luz do dia, nas margens do Sena. Quebraram janelas com serras circulares, ameaçaram seguranças e levaram nove joias da coroa francesa avaliadas em mais de 100 milhões de dólares.

Entre as peças roubadas: a tiara de pérolas da Imperatriz Eugénie, o conjunto de safiras da Rainha Maria Amélia com 24 safiras do Ceilão e 1.083 diamantes, brincos de esmeraldas de Maria Luísa da Áustria, o broche relicário com diamantes que pertenceu a Eugénie e foi criado especialmente para ela em 1855. A coroa da Imperatriz Eugénie, ornamentada com mais de 1.300 diamantes e 56 esmeraldas, foi encontrada danificada do lado de fora do museu, abandonada pelos ladrões na fuga apressada. O famoso diamante Régent, com seus 140 quilates, felizmente não foi levado.

O assalto foi ousado. Mas o que ele revelou foi ainda mais chocante.

A auditoria nacional posterior expôs que apenas 39% das salas do Louvre tinham câmeras ativas em 2024. E aqui vem o detalhe que parece piada, mas é tragédia: a senha do sistema de segurança era simplesmente "Louvre". Como um museu que guarda alguns dos maiores tesouros da humanidade pode operar com esse nível de vulnerabilidade?

Segundo a mesma auditoria, o sistema de segurança só deve ser completamente modernizado em 2032. Isso mesmo, ainda faltam sete anos. E enquanto isso? Enquanto isso, temos senhas ridículas, câmeras desativadas e um dos maiores acervos do mundo correndo risco.

Quando a infraestrutura desmorona

Se o roubo já não fosse suficiente, no final de novembro veio mais uma notícia desoladora. Um vazamento de água danificou entre 300 e 400 documentos da biblioteca de Antiguidades Egípcias. Revistas de egiptologia e documentação científica do final do século XIX e início do século XX, materiais consultados por pesquisadores do mundo inteiro, foram atingidos por água que vazou de tubulações obsoletas.

Tubulações que, segundo a administração, estão desativadas há meses e só serão substituídas em setembro de 2026. O vazamento aconteceu por uma abertura acidental de válvula que provocou o rompimento de um cano no teto da ala Mollien.

Francis Steinbock, administrador-geral adjunto do museu, garantiu que nenhuma obra do patrimônio foi danificada e que não há perdas irreversíveis. Os volumes serão secos e restaurados. Mas a mensagem é clara: o palácio está envelhecendo e a manutenção não acompanha.

E tem mais. Em novembro, o museu também teve que fechar uma galeria de antiguidades gregas por causa da deterioração das vigas do edifício. A estrutura do próprio prédio, um palácio com séculos de história, está cedendo.

A greve que fechou as portas

E então chegamos à segunda-feira, 15 de dezembro. Cerca de 400 funcionários votaram unanimemente pela greve. O Louvre fechou as portas. O cartaz na entrada dizia simplesmente: "A abertura do museu está adiada. Informaremos as condições de uma possível abertura o mais rápido possível."

Os sindicatos CGT e CFDT foram diretos: "Visitar o Louvre se tornou uma verdadeira pista de obstáculos". Os trabalhadores protestam contra condições de trabalho deterioradas, falta de efetivo para lidar com as falhas técnicas e a antiguidade do edifício, além de recursos insuficientes. Os funcionários pedem mais pessoal, salários mais altos e, principalmente, investimento real na manutenção do palácio.

A ministra da Cultura, Rachida Dati, prometeu reverter o corte orçamental de 5,7 milhões de euros previsto para 2026. Em 2024, o museu recebeu 98,2 milhões de euros do Estado. Mas os funcionários dizem que isso não é suficiente. As discussões com o governo, segundo os sindicatos, não trouxeram "nenhum outro avanço significativo".

Para tentar arrecadar mais recursos, os ingressos para visitantes não-europeus aumentarão 45% em 2026, passando para 32 euros. Uma medida necessária, mas que gera debate sobre acessibilidade. É só fazer as contas, uma família brasileira de quatro pessoas vai pagar pra entrar no museu, na cotação aproximada de euros pra reais, uns R$ 832,00, imagina? Só pra entrar!

Um palácio com história

E aqui é o que mais dói nessa história toda. Porque o Louvre não é apenas um museu. É um universo. É o lugar onde a própria ideia de museu público ganhou força.

Este palácio começou como fortaleza medieval no século XII, sob o rei Filipe Augusto. Foi residência real dos Valois e dos Bourbons. Francisco I no século XVI trouxe para cá a Mona Lisa que havia comprado de Leonardo da Vinci. Henrique II expandiu o palácio. Catarina de Médici construiu o Palácio das Tulherias. Luís XIV viveu aqui antes de se mudar pra Versalhes.

E então veio a Revolução Francesa. Em 1793, logo após a revolução, o palácio abriu suas portas como museu público. Os tesouros da realeza se tornaram patrimônio de todos. A arte deixou de pertencer apenas aos nobres e passou a ser direito de cada cidadão. Foi uma revolução dentro da revolução.

Napoleão Bonaparte expandiu enormemente as coleções trazendo obras de suas campanhas militares pela Europa. O museu foi até rebatizado de Museu Napoleão por um tempo. Muitas dessas obras foram devolvidas após sua derrota em 1815, mas o acervo já havia crescido exponencialmente.

Hoje são 35.000 obras expostas em 60.600 metros quadrados. As coleções atravessam milênios: antiguidades orientais da Mesopotâmia, o esplendor do Egito faraônico, esculturas gregas e romanas que definiram os padrões de beleza do Ocidente, pintura italiana do Renascimento com a Mona Lisa de Leonardo da Vinci e as Bodas de Canaã de Veronese, pintura francesa dos séculos XVII ao XIX com Delacroix, David, Ingres.

A Galeria de Apolo, onde aconteceu o roubo, é por si só uma obra-prima. Começou a ser decorada no século XVII sob o reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que encomendou a Le Brun afrescos que celebravam o triunfo da luz sobre as trevas. É uma das salas mais ornamentadas do palácio, um testemunho do absolutismo francês em toda sua glória. E foi exatamente ali que guardavam as joias da coroa, símbolos máximos do poder imperial francês.

A diretora sob pressão

Laurence des Cars é a primeira mulher a dirigir o Louvre, assumiu o posto em 2021. Em um memorando vazado no início de 2025, ela havia alertado que visitar o museu havia se tornado um "calvário", citando isolamento precário, flutuações extremas de temperatura, problemas de ruído e superlotação no espaço sob a entrada, a famosa de pirâmide de vidro, projetada pelo arquiteto Ieoh Ming Pei e inaugurada em 1989.

Ela sabia dos problemas. Alertou publicamente. Mas entre saber e conseguir os recursos para resolver existe um abismo. Agora, segundo o jornal Mediapart, sua posição está "cada vez mais fragilizada". A sequência de crises colocou enorme pressão sobre sua gestão.

Em resposta, a ministra Rachida Dati nomeou Philippe Jost, o alto funcionário responsável pela bem-sucedida reconstrução da Catedral de Notre-Dame, para trabalhar em conjunto com des Cars nos próximos meses para "reorganizar profundamente o museu". Uma missão de salvamento.

O projeto que promete, mas demora

O presidente Emmanuel Macron anunciou em janeiro de 2025 o projeto Louvre Nouvelle Renaissance, uma grande reforma para modernizar o museu. É um plano ambicioso que prevê melhorias na segurança, na infraestrutura, na experiência do visitante.

O que me frustra nessa história toda não é apenas a sequência de desastres. É a sensação de que estamos assistindo a um descaso sistemático com um patrimônio que pertence à humanidade inteira. E logo aqui, na França, o país com museus mais visitados do mundo.

Em 2024, o museu recebeu 8,7 milhões de visitantes, sendo 69% estrangeiros. São milhões de pessoas do mundo inteiro que vêm até Paris para ver a Mona Lisa, a Vitória de Samotrácia, a Vênus de Milo. Para atravessar séculos de história em poucas horas. Para sentir que fazem parte de algo maior.

Eu amo o Louvre com todas as suas imperfeições. Amo me perder em suas galerias intermináveis, a surpresa de virar uma esquina e encontrar uma sala que nunca tinha visto antes, o prazer de ficar na frente de uma pintura e passar minutos apenas olhando, sem pressa.

Mas é justamente por amar esse lugar que me dói ver a situação atual.

A onda de roubos em museus franceses

E essa história é ainda maior. O roubo do Louvre não foi um caso isolado. Faz parte de uma onda de assaltos a museus em toda a França nos últimos meses.

Em setembro de 2025, ladrões roubaram amostras raras de ouro no valor de cerca de 700 mil dólares do Museu de História Natural de Paris. Também em setembro, ladrões invadiram o Museu Nacional Adrien Dubouché, em Limoges, roubando dois pratos de porcelana chinesa dos séculos XIV e XV e um vaso do século XVIII, no total avaliados em cerca de 11,2 milhões de dólares.

Em novembro de 2024, quatro homens armados assaltaram o Hiéron, em Paray-le-Monial, na Borgonha, levando a peça principal: Via Vitae, de 1904, uma criação monumental do ourives Joseph Chaumet com quase três metros de altura e três toneladas de peso, classificada como tesouro nacional.

Na véspera desse assalto, o Museu Cognacq-Jay, em Paris, também foi assaltado por um bando armado com tacos de baseball e machados, que levaram diamantes e peças expostas no valor de cerca de um milhão de euros.

É uma crise sistêmica. Os museus franceses estão vulneráveis. A infraestrutura está obsoleta. Os recursos são insuficientes. E os criminosos sabem disso.

O Louvre no Tempo de Olhar

No Tempo de Olhar, o guia cronológico dos museus de Paris que lancei há poucas semanas, o Louvre ocupa o primeiro lugar justamente porque ele é central na história da arte ocidental. São muitas exposições memoráveis, muitas lembranças maravilhosas como a exposição Les Choses, que propôs uma nova visão sobre o conceito de natureza-morta, ou a retrospectiva de Leonardo Da Vinci em 2019.

Os leitores merecem saber que o Louvre está em transformação, que visitá-lo pode significar enfrentar greves, filas ainda maiores, algumas galerias fechadas. E que tudo isso faz parte de uma luta maior: a luta para que este patrimônio continue vivo, acessível, preservado para o futuro.

Uma beleza que persiste

Eu não sei como essa história vai terminar. Não sei se o projeto Louvre Nouvelle Renaissance conseguirá resolver os problemas estruturais. Não sei se os funcionários conseguirão as condições de trabalho que merecem. Não sei se as joias roubadas serão recuperadas, embora dois suspeitos tenham sido presos e admitido envolvimento no crime, mas as joias ainda não foram encontradas.

Mas sei que o Louvre sobreviveu à Revolução Francesa, às guerras mundiais, às mudanças de regime, ao roubo da Mona Lisa em 1911 por Vincenzo Peruggia, um funcionário italiano do museu que ficou com o quadro escondido em seu apartamento por dois anos.

O Louvre sobreviveu porque há sempre pessoas que acreditam que vale a pena lutar por ele. Pessoas como Laurence des Cars, que alerta sobre os problemas mesmo sabendo que será criticada. Pessoas como os 400 funcionários que votaram pela greve para defender condições dignas de trabalho. Pessoas como você e eu, que visitamos, que ensinamos, que insistimos em dizer que cultura importa.

O Louvre está em crise, sim. Mas continua sendo o Louvre. Continua sendo essencial. E continua merecendo toda nossa atenção, nossa defesa, nosso amor.

Tempo de Olhar - Guia Cronológico dos Museus de Paris e Arredores
Disponível em formato digital

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