Gombrich, 33 anos depois: por que um clássico pode (e deve) ser questionado

O meu novo Gombrich, presente de Natal.

Abri o embrulho e lá estava ele: História da Arte do E.H. Gombrich, edição de 2022. A capa amarela da Phaidon me transportou imediatamente pra 1993, quando meu primeiro Gombrich, também amarelo, foi meu companheiro de leitura da prova teórica de habilidade específica pro vestibular da UnB de Artes Plásticas. Era O livro referência de todo mundo. O tijolo que carregava a história da arte que a gente ainda não sabia que um dia iria questionar. Todos nós, estudantes de arte, tínhamos. Todos nós líamos. Era o basicão. Esse meu primeiro exemplar está guardado até hoje no meu apartamento no Rio, cheio de marcações e rabiscos daquela época.

Segurei essa nova edição e pensei: será que mudou alguma coisa? O prefácio dessa edição, de 2022, é de sua neta Leonie Gombrich e traz também os das edições anteriores. Beleza, e o que mais? Passei por todas as imagens. Todas. Reolhei cada capítulo procurando ver se tinham atualizado, incluído, corrigido. E a resposta é não. Nada mudou. Trinta e três anos depois da minha primeira leitura, Gombrich continua não apresentando uma única artista mulher em um livro que se propõe a contar A história da arte.

Espera. Minto. Tem uma. Na 16ª edição, ele finalmente incluiu Käthe Kollwitz. Uma. Em 650 páginas. Em oito séculos de arte. Uma artista mulher merece ser lembrada, segundo Gombrich, em toda a história da pintura ocidental. Então no meu basicão, que é a terceira edição do livro, não tem nenhuma mulher, gente! E ainda demorou mais treze edições para que ela fosse incluída. A título de comparação: Giorgio Vasari, lá em 1550, no seu Vidas dos Artistas, incluiu quatro mulheres. Quatrocentos anos antes de Gombrich publicar a primeira edição do Story of Art em 1950, Vasari já sabia que mulheres faziam arte.

Sem tirar o mérito deste livro, que continua a ser a porta de entrada pra muita gente na História da Arte, isso me faz pensar bastante nas narrativas oficiais, né? Porque ao lado do Gombrich, tem o segundo livro que eu ganhei de presente no Natal.

O outro lado da estante

O segundo presente de Natal

Ulysse, Athéna et les autres, de Camille Jouneaux, publicado pelas Éditions du Chêne. É o segundo livro dela. O primeiro, Léonard, Frida et les autres, já tinha me conquistado. Tenho usado muito pra preparar minhas aulas: 800 anos de pintura contados com leveza e informações preciosas, incluindo as artistas mulheres que a história oficial apagou. Camille Jouneaux é a criadora do @la.minute.culture no Instagram, com mais de 175 mil seguidores, e tem a capacidade rara de tornar a história da arte acessível (e divertida).

Neste novo livro, ela usa a mitologia greco-romana como fio condutor da exploração da pintura. De Botticelli a Chagall, passando por Rubens e Artemisia Gentileschi. Cada quadro vem contextualizado pelo mito que o inspirou, com referências à literatura antiga e análises visuais detalhadas. O livro funciona tanto pros novatos quanto pra quem já conhece e lê sobre o assunto. Ela faz uma abordagem muito legal: Camille mostra as obras, quem as fez, incluindo as mulheres que sempre estiveram ali, pintando, criando, existindo. Fora que o livro é super ilustrado, cheio de infográficos, quadros e tabelas pra gente aprender ou relembrar sobre os mitos greco-romanos. Espero que as traduções pra inglês e português saim logo. 

A pergunta que mudou tudo

Pra entender toda essa discussão, precisamos voltar a 1971. Foi quando a historiadora de arte Linda Nochlin publicou seu ensaio revolucionário "Por que não houve grandes artistas mulheres? (Why Have There Been No Great Women Artists?)" na revista ARTnews. Nochlin não estava apenas fazendo uma pergunta retórica. Ela estava desmontando toda a estrutura sobre a qual a história da arte tinha sido construída: o mito do artista-herói masculino, individual, genial, que cria sozinho.

Nochlin mostrou que essa pergunta na realidade não fazia sentido desde o início. Não é que não existiram grandes artistas mulheres. É que o sistema inteiro foi desenhado pra impedir que elas fossem reconhecidas como tal. As academias de arte que não aceitavam mulheres para se formar. Os ateliês que não as recebiam como aprendizes. Os críticos que as diminuíram. E os historiadores da arte que simplesmente as apagavam dos livros ou nem sequer se deram trabalho em pesquisar sobre elas.

Cinquenta anos depois desse texto fundamental, o trabalho que Nochlin começou continua sendo feito. E é aqui que entra o terceiro livro dessa conversa, que desde que foi lançado está entre meus preferidos.

A lacuna que se tornou manifesto

A História da Arte sem os Homens (The Story of Art Without Men), da Katy Hessel. Publicado em 2022, foi best-seller do New York Times e vencedor do Waterstones Book of the Year. O título já é uma provocação direta ao Gombrich. Katy Hessel é historiadora da arte e fundadora do podcast e perfil no Instagram @thegreatwomenartists, e decidiu fazer o que Gombrich se recusou: contar a história da arte centrando as mulheres.

No livro, ela cobre do Renascimento até os dias de hoje, apresentando mais de 300 obras. Mas o que mais me interessa é a clareza do propósito: não se trata de "adicionar" mulheres à narrativa existente. Trata-se de reconhecer a invisibilidade e o apagamento a que elas foram submetidas. Que John Ruskin pudesse declarar no século XIX que "nenhuma mulher poderia pintar" porque o sistema inteiro foi construído pra validar essa mentira. Que Walter Gropius mandou as mulheres da Bauhaus pro ateliê de tecelagem porque acreditava que elas pensavam em duas dimensões enquanto homens pensavam em três.

Hessel cita uma estatística preocupante mas não surpreendente: 30% da população britânica não consegue nomear mais de três artistas mulheres. Entre jovens de 18 a 24 anos, esse número sobe pra 83%. Esse livro tem sido minha fonte constante de leitura e consulta. Não é só um livro pra ler uma vez e guardar na estante. É um livro de trabalho, de referência, de descoberta contínua.

E o trabalho de reparação histórica continua se expandindo (ainda bem). Eva Kirilof, no ensaio gráfico Une Place, ilustrado por Mathilde Lemiesle e publicado pela Hachette Pratique em 2022, oferece reflexões visuais sobre como as mulheres foram sistematicamente apagadas dos nossos relatos coletivos. Com uma abordagem documentada e engajada, Kirilof conecta narrativas históricas e políticas aos percursos de mulheres artistas. Já Ludivine Gaillard, criadora do @mieuxvautartquejamais, em Imparfaites, ricamente ilustrado por Elise Enjalbert (Éditions First, 2022), examina o outro lado dessa moeda: não a ausência das mulheres artistas, mas a presença constante das mulheres como objetos do olhar masculino. Ela decifra como a arte ocidental construiu uma imagem da mulher conforme a sociedade patriarcal, seja fantasiada, demonizada ou vitimizada. É uma análise essencial do male gaze na história da arte, com tom acessível mas rigorosamente documentado.

Por que um clássico pode envelhecer mal

Quando questionado sobre a ausência de mulheres no basicão História da Arte, Gombrich respondeu que estava escrevendo a história da arte apenas "como ela era", e que mulheres simplesmente não apareciam muito antes do século XX. Ele tem razão, e essa resposta revela simplesmente a perpetuação de uma exclusão.

Porque as mulheres sempre fizeram arte. Sofonisba Anguissola, no Renascimento, pintava retratos revolucionários que mostravam mulheres jogando xadrez, demonstrando sua inteligência numa época em que isso era considerado avançado demais. Artemisia Gentileschi dominava a técnica do tenebrismo caravaggesco e criava obras de uma potência visceral que seus contemporâneos homens não alcançavam. Harriet Powers, nos Estados Unidos do século XIX, criava colchas narrativas que hoje são reconhecidas como obras-primas da arte têxtil. Lee Krasner estava fazendo drip paintings antes de conhecer Jackson Pollock, mas Gombrich, ao falar de Pollock, não a menciona nem uma vez.

A biblioteca que se completa

Então eu olho pra minha estante agora e vejo várias possibilidades de diálogo entre esses livros. O Gombrich de 1993, que eu li como descoberta, porque era o que tinha de disponível na época, meu companheiro de véspera de vestibular. O Gombrich de 2025, que continua exatamente igual, como um monumento ao patriarcado. E ao lado, os livros da Camille Jouneaux, da Katy Hessel, que estão fazendo o trabalho que precisava ser feito há décadas. 

Não se trata de "cancelar" Gombrich. Ele escreveu um livro acessível, didático, que introduziu milhões de pessoas à história da arte, inclusive eu. Mas se trata de reconhecer que um clássico pode, sim, envelhecer mal. Que podemos admirar a estrutura narrativa, a clareza da escrita, a escolha das obras, e ao mesmo tempo dizer: isso aqui está incompleto. Isso aqui perpetua uma injustiça. Isso aqui precisa ser complementado, corrigido, expandido.

A boa notícia é que esse trabalho está sendo feito. Por mulheres como Camille Jouneaux, que escolhe incluir Artemisia Gentileschi numa narrativa sobre mitologia porque ela tem tanto direito de estar ali quanto Caravaggio. Por mulheres como Katy Hessel, que cria uma nova narrativa, uma que reconhece que a arte sempre foi feita por todos, não só por metade da humanidade. E por mulheres como Linda Nochlin, que há mais de 50 anos nos deu as ferramentas pra fazer essas perguntas.

O que tudo isso nos ensina?

Pra mim, esses livros de Natal são uma lição sobre como aprendemos e interpretamos a história da arte. Não basta ter o livro, a referência, o clássico. Precisamos ler os livros no plural. Precisamos ler Gombrich e, logo em seguida, ler Hessel. Precisamos conhecer a narrativa oficial e, ao mesmo tempo, buscar quem ficou de fora dela.

Quando começamos a fazer isso, a história da arte fica mais rica, mais complexa, mais honesta. Descobrimos que Plautilla Nelli foi a primeira artista renascentista florentina conhecida. Que Rosalba Carriera revolucionou a técnica do pastel no século XVIII. Que Hannah Höch foi uma das grandes montadoras de fotografia do Dada. Que Alice Neel pintou retratos que capturam a vida americana com uma intimidade que poucos alcançaram.

E não são descobertas. São redescobertas. Porque essas mulheres sempre estiveram lá. Só estavam sendo sistematicamente ignoradas.

os queridinhos da minha biblioteca, espero que venham logo as traduções!

Para saber mais

Se você quer expandir sua biblioteca de história da arte para além dos clássicos, aqui vão alguns caminhos:

Camille Jouneaux - Ulysse, Athéna et les autres: La mythologie gréco-romaine racontée par la peinture (Éditions du Chêne, 2024). E o anterior, Léonard, Frida et les autres (Éditions du Chêne, 2022), que cobre 800 anos de pintura incluindo mais de 100 artistas.

Katy Hessel - The Story of Art Without Men (W. W. Norton & Company, 2023). Disponível em várias línguas, foi best-seller do New York Times e eleito livro do ano pela Waterstones em 2022.

Eva Kirilof - Une Place: Réflexions sur la présence des femmes dans l'histoire de l'art (Hachette Pratique, 2022). Ensaio gráfico ilustrado por Mathilde Lemiesle que repensa os mitos sobre a presença das mulheres na história da arte.

Ludivine Gaillard - Imparfaites: Représenter "la femme" dans l'art occidental: entre fantasmes et domination masculine (Éditions First, 2022). Ilustrado por Elise Enjalbert, examina como a arte ocidental construiu uma imagem das mulheres através do male gaze.

Linda Nochlin - "Why Have There Been No Great Women Artists?" Ensaio publicado originalmente na ARTnews em 1971, fundamental pra entender a exclusão sistemática de mulheres da história da arte.

E.H. Gombrich - História da Arte (Phaidon, 16ª edição, 2022). Leia, sim. Mas leia sabendo que é só o começo da conversa, não o fim dela.




Conversas sobre Arte existe pra tornar a história da arte acessível e inspiradora. Se você quer aprender a olhar pra arte com mais profundidade, conheça o Guia Tempo de Olhar e as mentorias individuais que ofereço.

Fontes consultadas:

Éditions du Chêne - Informações sobre Ulysse, Athéna et les autres
W. W. Norton & Company - Informações sobre The Story of Art Without Men
Wikipedia - The Story of Art
Art UK - E. H. Gombrich and 'The Story of Art' revisited
The Conversation - 'No woman could paint': The Story of Art Without Men corrects nearly 600 years of male-focused art criticism

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