“O mundo acabando e você aí, falando de arte” (e por que eu também continuo insistindo)
Um exemplo do emblema do Escudo Azul, criado para marcar locais de patrimônio cultural em caso de bombardeio aéreo.
Uma amiga do Rio me mandou um reels da Thaís Poetha, escritora e roteirista que eu não conhecia. Ela começa assim, direta: o mundo acabando e você aí falando de arte… O reels reverberou tanto, mas tanto, que resolvi escrever sobre essa pergunta. Porque é exatamente isso que eu faço, com a maior paixão: falar de arte. De objetos, de histórias de pessoas e de épocas. E essa frase colocou em palavras uma tensão que existe, sim, em continuar fazendo isso quando o mundo parece desabar.
Brasília, 8 de janeiro de 2023
Eu nasci no Rio, cresci em Brasília. Passei vinte anos da minha vida nessa cidade que foi construída como uma utopia de Juscelino Kubistcheck, um projeto de país que acreditava que arquitetura e urbanismo podiam mudar o destino de um povo. Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão: a cidade inteira é um argumento estético, uma afirmação de que beleza e política não são mundos totalmente separados.
No dia 8 de janeiro de 2023, Brasília foi atacada. Um espaço que é patrimônio da humanidade, vandalizado por uma multidão que não reconhecia nada do que estava destruindo. Foi um gatilho. Eu chorei copiosamente o dia inteiro. Um dos momentos que me fez pensar, de forma quase ingênua e, como o sonho de Brasília, um tanto utópica, sobre o que significa falar de arte quando o mundo parece desmoronar.
Quem destrói arte destrói a memória. Quem destrói a memória tenta apagar a possibilidade de um povo se reconhecer em sua própria história. Falar de arte, então, não é frescura nem frivolidade. É insistir que a beleza existe, que ela tem uma história, que ela pertence a todo mundo, não apenas a quem pode pagar pra entrar num museu caro ou estudar numa universidade de prestígio.
Isso virou a minha missão. Meu propósito de vida que também inclui não só falar de, mas fazer arte.
O que a guerra também ensina
Ontem eu estava assistindo o Quotidien, um talk show noturno francês que recebe convidados e comenta o mundo com uma mistura de jornalismo e humor. Uma das jornalistas, Ambre Chalumeau, fez uma bela reportagem essa semana sobre uma coisa que eu não conhecia: o Escudo Azul. E tenho certeza que você também nunca tinha ouvido falar.
Aí, curiosa sobre o assunto, fui pesquisar, né. E olha só.
Sabia que existe um emblema criado pela Convenção de Haia de 1954 especificamente pra identificar patrimônios culturais protegidos pelo direito internacional humanitário? Museus, bibliotecas, arquivos históricos, sítios arqueológicos, monumentos. O símbolo funciona como um alerta pra forças militares: aqui existe memória coletiva da humanidade. Please, não destrua.
A lógica é simples: tornar visível o que precisa ser preservado, mesmo quando cidades viram áreas de combate. Banners, bandeiras enormes e pinturas no telhado dos edifícios indicam esses lugares pra evitar que uma bomba ou drone os destruam.
Esse sistema nasceu depois da devastação cultural da Segunda Guerra Mundial, quando obras, bibliotecas e monumentos foram destruídos em vários países. A ideia é que patrimônio cultural não pertence a um único povo. Pertence à memória de todos nós.
Nem sempre funciona. Aleppo, Palmira, as destruições recentes no Oriente Médio, especialmente em Beirute e Teerã, mostram que o símbolo não é garantia de nada. Mas ele existe. Pelo menos alguém pensou, alguém propôs e tratados foram assinados pra isso.
Não é de hoje que pessoas arriscam muito pra proteger a memória coletiva. Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto Hitler ordenava o roubo sistemático das maiores obras de arte da Europa para seu museu pessoal, o presidente Roosevelt autorizou a formação de uma unidade militar composta por diretores de museu, curadores e historiadores de arte. Foram à Europa para localizar e recuperar o que estava sendo destruído ou escondido. Na prática, foram cerca de 345 homens e mulheres de treze nações. Os chamados Monuments Men. Em 2014, George Clooney fez um filme sobre essa história, que eu acho super importante como lembrança: essa batalha existiu, e foi travada por pessoas que acreditavam que a arte pertence a todo mundo.
Porque mesmo no meio da guerra, do caos, alguém está tentando proteger a história. Isso também é falar de arte quando o mundo está acabando.
A capa desse livrinho delícia do John Berger
O que significa ver antes de falar
Faz algumas semanas eu descobri a existência de um livro: Ways of Seeing, de John Berger, publicado em 1972. (E antes que você pergunte: soube da existência desse livro pelo TikTok. Uma lista de leituras essenciais da história da arte. Eu acabei treinando o meu algoritmo pra me entregar esse tipo de conteúdo, numa rede social que mal sei usar, mas que às vezes aparece coisas assim.)
Berger começa com uma ideia aparentemente simples: ver vem antes das palavras. A criança olha e reconhece antes de conseguir falar. Ver não é neutro, nunca é apenas registrar o que está na frente dos olhos. É uma forma de se situar no mundo.
É exatamente o que eu tento fazer quando ensino alguém a olhar pra uma obra. Não estou ensinando apenas nomes e datas. Estou ensinando uma forma de estar presente diante de alguma coisa. Uma forma de ver que não passa pela ansiedade de entender tudo de imediato, mas pela disposição de ficar, de deixar a imagem chegar.
Berger também diz que um povo cortado do seu próprio passado é muito menos livre pra escolher e agir do que um povo que conseguiu se situar na história. Pensei em Brasília. Pensei nessas guerras. Pensei nos meus alunos, nos leitores desse blog, nas pessoas que me escrevem e se interessam em aprender sobre arte.
Paris e sua oferta cultural
Eu vivo em Paris há quase 16 anos. Estar longe da família, dos amigos de vida inteira, tem seus momentos de dúvida e de solidão. O que me ajuda a enfrentar essa realidade de expatriada é, entre outras coisas, o acesso a uma programação cultural que me alimenta de um jeito que é bem difícil traduzir em poucas palavras. (Berger diria que isso é justamente o ponto.)
Não é por acaso que em alguns países, como a Suíça, médicos já receitam visitas a museus como parte de tratamentos para ansiedade e depressão. A contemplação ativa algo em nós que o barulho cotidiano anestesia. E isso não é escapismo. É justamente o oposto: é uma forma de voltar a si.
Felizmente eu tenho esse tipo de acesso pertinho de mim. E grande parte das pessoas que me lê não tem. Então o que eu faço é uma tentativa de diminuir essa distância. Não para fingir que a experiência presencial se substitui, porque não se substitui jamais. Mas de abrir uma janela mental, de mostrar que aquilo existe e que tem uma história e que essa história diz respeito a quem você é hoje. Mesmo inconscientemente.
Ver o mundo mesmo quando dói
O reels da Thaís Poeta reverberou porque a pergunta que ela faz é real. O mundo está, de muitas formas, se acabando. Guerras, crises climáticas, colapsos políticos, o peso coletivo de uma ansiedade que não tem nome claro mas que todo mundo sente.
E no meio disso, eu continuo aqui falando de uma exposição, da história de um objeto, de um livro que descobri no TikTok.
Continuo porque acredito que a sensibilidade é uma forma de resistência. Que treinar o olhar, aumentar o repertório, aprender a ver a estrutura de uma imagem, não é fuga da realidade. É uma maneira de enfrentá-la com mais recursos. Como diria Friedrich Nietzsche: "Temos a arte para não morrer da realidade."
Quando eu preparo uma aula, quando pesquiso um artista que ninguém me ensinou, quando entro numa feira de design ou de moda sem nenhuma intenção de comprar nada mas apenas de ver como as coisas estão sendo pensadas visualmente, saio diferente. Mais rica de alguma coisa que não é material, intangivel, mas que é real.
Não tem nada que me deixe mais energizada do que pesquisar pra dar uma aula. Isso me move. E é isso que eu quero oferecer. Não só conhecimento acumulado. Uma forma de ver.
O que está sendo construído aqui
Estou desenvolvendo algumas ferramentas que fazem parte dessa missão. Recentemente criei o feel/art, um aplicativo web que te acompanha numa observação de obra de arte, ou em uma visita a uma exposição, ou museu. Funciona também diante de um prédio ou de uma escultura na rua, e te ajuda a ler o que está vendo. E ainda te dá a paleta de cores da imagem que ele analisa! Ele não é uma enciclopédia e não tem uma base de informações como o Google, mas funciona como um companheiro de olhar. E você ainda cria um diárico visual, salvando as suas análises e pode até compartilhar como imagem depois. Legal, né? Se você quiser experimentar aqui tem um código com 10 leituras gratuitas. Depois tem uma mensalidadezinha ou você compra mais créditos.
E o círculo, um espaço de estudo coletivo pra quem quer continuar esse trabalho de afinação do olhar ao longo do tempo. Um hub de informações. Ainda estou desenhando a programação, mas a direção está cada vez mais clara.
Isso por que eu nem falei na Mentoria Rizoma ou o Acompanhamento Módulo para artistas. Mas so clicar pra entender cada um.
O mundo pode continuar acabando. Mas eu vou continuar insistindo.
Fontes consultadas: BERGER, John. Ways of Seeing. Penguin Books, 1972. "The Blue Shield emblem for cultural property protection in armed conflict", UNESCO. Reportagem de Ambre Chalumeau, 11/03 do Quotidien. Reels @poetha.