Entre a minha primeira Bienal e as ruínas de Olímpia

As ruínas de Olímpia, na Grécia

Eu morava em Brasília quando fui com meus pais e meu irmão passar um fim de semana em São Paulo, em 1989, pra 20ª Bienal, no Ibirapuera. Tinha doze anos. Ficamos no Hotel Mofarrej, e eu já era acostumada com a arquitetura de Oscar Niemeyer, mas foi a primeira vez que entrei no pavilhão que ele também projetou pra Bienal. E eu ainda me lembro bem do impacto de entrar naquele prédio e andar pelas passarelas.

O cartaz daquela edição era uma banana meio verde partida ao meio e grampeada de volta, do designer Rodolfo Vanni, um dos cartazes mais lembrados da história do evento. Pra você ver como Maurizio Cattelan não inventou nada com sua banana grudada com fita adesiva (a dele é de 2019, chamada Comedian)... A curadoria daquela edição foi assinada por três nomes, Stella Teixeira de Barros, Carlos Von Schmidt e João Cândido Galvão, embora aos doze anos esse tipo de informação, claro, não significasse absolutamente nada pra mim.

O que ficou foi a experiência pura, inesquecível, de ver uma Bienal pela primeira vez: foi ali que vi (e me despertei) pra obra de Yves Klein e Paul Klee. Que entendi a importância de ver arte ao vivo e a cores, da sensação de "uau, tô cara a cara com essa pintura" ou "o que será que passou pela cabeça dessa pessoa pra executar isso?". Tanto encantamento, como eu amo ficar encantada! Então essa viagem foi um divisor de águas. Ali, meio que inconscientemente, decidi ser artista ou pelo menos ter minha vida dedicada à arte. Fiquei anos com um adesivo daquele cartaz grudado na minha maleta de madeira de pintura.

O acaso que levou a Olímpia

Corta pro verão europeu de 2026.

A gente no Museu Arqueológico de Olímpia

Meus filhos estão adolescentes e a gente quis repetir a experiência de fazer um cruzeiro. Quando fizemos a primeira vez eles eram muito bebês e acabamos não aproveitando tanto assim. Eles amaram e fizeram vários novos amigos. O percurso saía de Veneza, passando por lugares diferentes e inéditos pra gente, voltando pra Veneza. Assim, juntamos vários desejos numa viagem só: Bienal de Veneza, Grécia e diversão pros nossos filhos.

Os incêndios que atingiram várias ilhas gregas nesse verão obrigaram o cruzeiro a trocar uma das paradas, e a gente voltou pro mesmo porto no Peloponeso onde já tínhamos ido anos antes, na nossa primeira viagem de cruzeiro, quando as crianças ainda eram bebês. Na época não fomos até Olímpia, um dos passeios, porque eles eram pequenos demais. Mas dessa vez respeitamos os sinais e fomos. A ida pra Olímpia foi um feliz acaso.

Já tinha, no semestre passado, preparado uma aluna que ia viajar pra Atenas. Dei aula pra ela sobre a antiguidade grega, os períodos arcaico, clássico e helenístico. Sem saber o quanto a mesma aula serviria pra mim.

E serviu demais no Museu Arqueológico de Olímpia: entrei sem esperar nada de especial e saí pensando em tanta coisa. O acervo de bronzes de Olímpia é o maior do gênero em qualquer museu do mundo, algo em torno de catorze mil peças entre armas, elmos e objetos votivos, escavados ao longo de um século e meio de trabalho no mesmo sítio. Entre os capacetes está um que carrega o nome de quem o usou: foi dedicado a Zeus pelo general ateniense Milcíades, depois da vitória sobre os persas na batalha de Maratona, em 490 a.C. Ainda dei de cara com obras fundamentais da arte grega, entre elas o Hermes de Praxíteles, a Nike de Paionios e as esculturas de imperadores romanos como Adriano.

Os frontões do templo de Zeus me emocionaram a ponto de eu chorar na frente deles. Juro. Caí em prantos diante da beleza. O que me faz pensar no fato de sermos a única espécie capaz de fazer, conscientemente, coisas belas e criativas. Frase cafona, mas sentimento verdadeiro.

Olímpia é um dos sítios arqueológicos mais importantes da Grécia, Patrimônio Mundial da Unesco desde 1989. O Instituto Arqueológico Alemão trabalha ali desde 1875, e em outubro de 2025 completou 150 anos de escavação no mesmo espaço. Pesquisas recentes mostraram que o santuário era bem maior do que se pensava e que ainda existem partes completamente inexploradas. A emoção de estar ali estimula a imaginação de um jeito que nenhuma leitura substitui e faz a gente pensar em como as pessoas viviam ali há dois ou três mil anos.

Todo mundo sabe que Olímpia é o berço e o cenário de onde parte a tocha olímpica antes de percorrer o mundo até chegar à sede da vez. Muito curioso pensar que duas dessas sedes, o Rio de Janeiro e Paris, meus lugares preferidos no mundo, receberam a tocha recentemente, em 2016 e 2024.

A primeira Bienal deles

O sucesso do Pavilhão do Japão

Da Grécia fomos direto pra Veneza, pra 61ª Bienal de Arte, batizada de In Minor Keys. Foi a primeira Bienal dos meus filhos, e isso tornou a experiência duplamente feliz pra mim: o prazer de ver a mostra e o prazer de fazer como meus pais fizeram comigo, 37 anos antes, em São Paulo. Veneza encantadora como sempre, mas muito, muito quente. Nota mental: não ir pra Itália no meio do verão escaldante.

Essa edição foi concebida pela curadora Koyo Kouoh, que morreu em maio de 2025, antes da abertura. A Bienal decidiu realizar a mostra exatamente como ela pensou, com a equipe dela terminando o trabalho, e a edição ainda teve sua polêmica. Tem muito trabalho manual, muito ritual, muita valorização de instituições e de saberes que normalmente ficam fora do centro do circuito, a África vista de um jeito delicado e ao mesmo tempo muito potente. Descobri artistas incríveis, entre eles Michael Armitage, e me apaixonei por sua pintura. Mas esse assunto merece um texto só pra ele.

Entre os pavilhões nacionais, teve o do Japão, em que meus filhos puderam interagir de verdade. Ei Arakawa-Nash convida o público a carregar bonecos de bebê pelo espaço em Grass Babies, Moon Babies. Eles adoraram a experiência. A Índia voltou depois de sete anos fora, com Geographies of Distance: Remembering Home, curadoria de Amin Jaffer. Coisa mais linda. Vimos também a performance espetaculosa (e instagramável) de Florentina Holzinger balançando dentro de um imenso sino de bronze, dentro de Seaworld Venice, no Pavilhão da Áustria. E eu nem citei Comigo ninguém pode, de Adriana Varejão e Rosana Paulino no pavilhão brasileiro. Como eu disse, isso tudo é assunto pra outro texto.

Nada substitui estar ao vivo diante da obra de arte

Entre a Bienal que guardei como lembrança desde os doze anos e a primeira Bienal dos meus filhos, entre um sítio que ainda não terminou de contar sua própria história e uma exposição que celebra a África com potência, o que fica claro é: nada substitui a fruição, a experiência de estar ao vivo diante da obra de arte.

É esse compromisso com a educação visual e construção de repertório, além do estímulo à fruição, que está me fazendo desenhar a nova plataforma Conversas sobre Arte. O guia de 50 Museus de Paris, Tempo de Olhar, vai deixar de ser um projeto à parte e passa a morar dentro dela. Tudo sendo feito com muito trabalho e amor. Em breve conto todos os detalhes. E vocês serão, claro, os primeiros a saber.

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