Splendeurs du Baroque no Jacquemart-André: como o barroco se reinventou nas Américas

Fui ver Splendeurs du Baroque no Jacquemart-André com a minha filha Alexia. Muitas exposições estão se encerrando agora no verão, enquanto a cidade espera pelas grandes mostras de outono. Essa que termina agora no dia 2 de agosto e eu não podia deixar de ver.  Uma exposição com uma curadoria interessantíssim. Fui pra ver as obras de El Greco e Velázquez e acabei querendo entender melhor como pintores latino-americanos, logo depois da invasão espanhola, se adaptaram aos temas e à técnica que herdadas do colonizador.

Retrato de Menina de Velázquez

A história de um império

Vale a gente se situar numa linha do tempo, porque a exposição conta essa história e ela é praticamente o fio condutor do percurso. E bora relembrar as aulinhas de história geral do colégio. 

A Reconquista foi o processo de quase oito séculos em que os reinos cristãos da península ibérica foram retomando o território ocupado pelos mouros desde a invasão de 711. Foi lento, feito de reinos separados, alianças e guerras isoladas, não uma campanha única. O capítulo final aconteceu em Granada, o último reduto do domínio muçulmano na península, governado pela dinastia nazarida havia mais de duzentos anos. Em janeiro de 1492, depois de um cerco de meses, o sultão Boabdil entregou as chaves da cidade aos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que haviam unificado os dois maiores reinos cristãos da península através do seu próprio casamento. Foi no mesmo ano que a coroa espanhola financiou a viagem de Cristóvão Colombo, o que faz de 1492 uma virada dupla na história espanhola: fim da conquista islâmica na Europa, início da espanhola outra do outro lado do Atlântico.

Em 1516, com a morte de Fernando de Aragão, o trono passa pro neto do casal, Carlos I, criado em Flandres e que mal falava espanhol quando chegou lá pra assumir. Três anos depois, em 1519, Carlos também se torna imperador do Sacro Império Romano-Germânico, como Carlos V, herdando de uma vez um território que vai da Espanha aos Países Baixos, passando pela Áustria e por boa parte da Itália. É o início do domínio dos Habsburgo, a dinastia que vai reinar na Espanha até 1700.

É durante o reinado de Carlos que a conquista da América avança rápido e com (muita) violência. Entre 1519 e 1521, Hernán Cortés derruba o império asteca, culminando na queda de Tenochtitlán. Entre 1532 e 1533, Francisco Pizarro faz o mesmo com o império inca, capturando e depois executando o imperador Atahualpa. A resistência maia, no Iucatã, dura muito mais tempo: as campanhas espanholas começam em 1527, mas o último reduto maia independente, o reino de Itzá, só cai em 1697, mais de um século e meio depois.

O custo humano dessa conquista foi imenso. Historiadores estimam que a população indígena das Américas caiu drasticamente (pra não dizer que foi dizimada) ao longo do século seguinte por causa das guerras, trabalho forçado e, principalmente, pelas doenças trazidas pelos europeus contra as quais não havia imunidade. Isso tudo é o pano de fundo de tudo o que veio depois, inclusive das obras mais bonitas da exposição.

É também esse mesmo fluxo de prata e ouro extraído das colônias que financia o auge espanhol sob Filipe II, no final do século XVI, e sustenta a produção artística que a exposição celebra. O declínio vem já no século XVII: derrotas navais, guerras europeias, uma sucessão de reis cada vez mais fracos, até a morte de Carlos II, em 1700, sem herdeiros, encerrando a linha Habsburgo na Espanha. O Siglo de Oro da pintura e o colapso político do reino acontecem, em boa parte, ao mesmo tempo.

O percurso começa com Greco

Pietá, de El Greco

A exposição abre com El Greco, e é ali que o maneirismo aparece com mais força. Figuras mais esticadas e retorcidas, uma luz que não segue lógica naturalista nenhuma. Greco chega à península vindo de Creta e depois de Veneza, carregando o colorido de Ticiano e a musculatura de Michelangelo, e o resultado é uma pintura que ainda hoje parece deslocada no tempo e no espaço. Dali o percurso segue pra Velázquez, com um Retrato de Menina de uma precisão psicológica rara. Eu ainda tô com o rosto dessa criança anônima incrustada na minha mente. E termina com Francisco de Zurbarán, com duas santas de corpo inteiro, Santa Lúcia e Santa Emerenciana, onde a luz esculpe o tecido. Um luxo.

Passado esse núcleo espanhol, que a história da arte preservou e tem bem documentado, a exposição atravessa o Atlântico, e a coisa fica bem mais interessante, pelo menos pra mim. Por que surge uma curiosidade sobre essa transferência de conhecimento: o que acontece quando um sistema de pintura inteiro, pensado para determinados pigmentos e uma relação especiIfica com a luz europeia, precisa funcionar em outro continente, com outros materiais e luz disponíveis?

Uma resposta é o óleo sobre cobre. Fray Alonso López de Herrera, nascido em Valladolid por volta de 1580 e morto no México depois de 1648, pintou uma Imaculada Conceição por volta de 1640 usando essa técnica. O cobre, como suporte, intensifica o azul celeste e a luminosidade da cena de um jeito que a tela de linho não consegue. Pergunta se eu conhecia isso? Não! Achei genial. Pois é um material caro, importado, que reforça visualmente a própria mensagem religiosa da pintura: o sagrado literalmente brilha mais.

Madrepérola, ouro e a construção de um catolicismo americano

As Bodas de Caná, pintada em 1696 pelo mexicano Nicolás de Correa, é um exemplo do que ficou conhecido como enconchado: um gênero nascido no México no século XVII, inspirado nas lacas japonesas que chegavam à Nova Espanha pelo comércio do Galeão de Manila, e que consiste em incrustar fragmentos de madrepérola sobre um painel pintado a óleo em madeira. A luz que a madrepérola devolve, fragmentada, imprevisível, é usada de propósito pra sugerir o divino, algo que a pintura com pigmentos tradicionais não alcançaria. À preciosidade da madrepérola soma-se o brocado dourado aplicado sobre o painel e o detalhismo dos rostos pintados por cima de tudo isso.

O Galeão de Manila explica de onde vem esse vocabulário. Entre 1565 e 1815, a coroa espanhola operou essa rota comercial que ligava Manila, nas Filipinas, ao porto de Acapulco, no México, atravessando o Pacífico uma vez por ano. Os galeões traziam seda chinesa, porcelana e objetos laqueados do Japão incrustados de madrepérola, e voltavam carregados de prata mexicana e peruana pra pagar por esses produtos na Ásia. É essa rota, e não a Espanha, que explica a presença da madrepérola na pintura mexicana: a Nova Espanha funcionava como elo entre dois impérios comerciais espanhóis, o americano e o asiático.

O enconchado nasce exatamente desse cruzamento. A técnica chegou pelo comércio com o Japão, mas ela serve ao catolicismo europeu, encomendado por uma igreja já instalada na América colonial. É uma solução material nova, sem precedente direto na Espanha e sem continuidade direta com as técnicas indígenas anteriores à conquista. Existe porque aquela rota comercial específica, as encomendas religiosas específicas e os materiais disponíveis naquele momento se cruzaram ali, no México colonial. Incrível, né?

Olha essa moldura de madrepérola!

A Escola de Cuzco e a questão da autoria

Na mesma sala latino-americana, duas telas atribuídas à Escola de Cuzco, A Apresentação no Templo e A Fuga para o Egito, pintadas entre 1725 e 1800, mostram outra vertente da mesma adaptação. A escola nasceu do encontro entre a tradição pictórica trazida pelos espanhóis e oficinas onde pintores indígenas e mestiços foram formados. O resultado tem características próprias: cor quente, uso intenso de ouro em auréolas e vestes, pouco interesse pela perspectiva linear renascentista, composições mais planas e decorativas do que as espanholas.

A escola teve nomes documentados, como Diego Quispe Tito e Basilio de Santa Cruz Pumacallao, pintores indígenas ativos no final do século XVII. Em 1688, os pintores de Cuzco se dividiram formalmente entre artistas índios e brancos, o que indica que essa produção tinha peso econômico e disputa de mercado. No Jacquemart-André, as duas telas expostas estão atribuídas de forma genérica a "artistas da Escola de Cuzco", sem autoria individual, o que contrasta com a atribuição nominal de cada obra espanhola na mesma sala.

Velázquez e Manet, dois séculos depois

A última sala fecha com uma cópia que John Singer Sargent fez, ainda jovem, do Bufão com um Cão de Velázquez, também conhecido como Retrato de Don Antônio, "o Inglês". É uma cópia literal do quadro, feita como exercício de estudo direto sobre a pintura do mestre sevilhano, prática comum entre pintores que peregrinavam ao Prado no século XIX. É ali que a gente entende: o texto de parede lembra que Édouard Manet, depois de ver o mesmo acervo do Prado em 1865, chamou Velázquez de peintre des peintres, o pintor dos pintores. Manet escreveu ao amigo Henri Fantin-Latour dizendo que talvez o retrato mais espantoso já feito fosse o Retrato de Pablo de Valladolid, o bobo da corte pintado por Velázquez sem fundo definido, só o ar em volta da figura vestida de preto. Inspirado por essa pintura, um ano depois, em 1866, Manet pintou O Pífaro, hoje no Museu d'Orsay: uma figura isolada sobre fundo neutro, sem perspectiva, presa ao chão apenas pela própria sombra.

O Prado só abriu ao público em 1819. Foi a peregrinação de artistas como Manet, e depois Whistler e o próprio Sargent, que revalorizou Velázquez e o colocou no centro da conversa sobre pintura moderna no século XIX. 

Splendeurs du Baroque não é uma exposição grande. Dá pra ver com calma em uma horinha. Mas o percurso historico inteiro, do maneirismo de Greco ao enconchado mexicano, até a citação sobre Manet, mostra o mesmo material histórico sob ângulos diferentes: uma potência colonizadora que impôs sua técnica e sua fé a um continente inteiro e deixou, dos dois lados do Atlântico, pinturas que até hoje nos inspira a fazer novas conexões e enriquecer o olhar.

Informações práticas

Splendeurs du Baroque. De Greco à Velázquez Até 2 de agosto de 2026 Musée Jacquemart-André, 158 boulevard Haussmann, 75008 Paris Segunda a quinta, 10h às 18h. Sexta, até 22h. Sábado e domingo, até 19h. Reserva de bilhete online recomendada.

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