De Matisse a Almodóvar: o que essa exposição me lembrou sobre repertório e liberdade

Eu e La Gerbe, de 1953

No dia 6 de junho, Nuit Blanche em Paris, eu fui ver a exposição Matisse. 1941–1954 no Grand Palais. No final do dia e depois à noite, saí pra dar uma volta na cidade: fui ao Petit Palais ver Liquid Mirror, a instalação de Mathias Kiss, uma superfície fragmentada de espelhos, das janelas até o chão, interferindo no próprio edifício de 1900. Passei depois pela Caverne du Pont-Neuf, a instalação do JR parcialmente destruída (ainda vou escrever sobre esse assunto e os problemas do projeto), e terminei no túnel das Tuileries, onde o coletivo brasileiro POGO havia criado uma instalação que multiplicava feixes de luz pelo espaço inteiro. Multitudes se chama a obra, inspirada num poema de Walt Whitman.

Fui pra casa pensando na minha querida Gigi Barreto, da Casa Vida Cenário, aluna da Mentoria Rizoma. Dias antes, ela havia postado no Instagram que estava usando Pedro Almodóvar como referência, procurando uma chave pra criar um projeto do apartamento de um casal. E saí do Grand Palais pensando nela, achando que ela deveria também dar uma olhada em Matisse.

Do preto ao branco antes de tudo

Tem uma frase do Henri Matisse que eu me lembrei. Está numa carta que ele escreveu e que foi reunida no livro Teorias da Arte Moderna, organizado por H. B. Chipp. Matisse diz:

"Se o desenho pertence ao Espírito e a cor aos Sentidos, é preciso desenhar primeiro, cultivar o espírito e ser capaz de conduzir a cor pelos caminhos espirituais."

O argumento é bastante sensível e eu concordo que, dentro do contexto onde ele estava inserido e a época em que foi a carta escrita , faz todo o sentido.

Matisse está dizendo que a cor toca o observador antes mesmo que ele compreenda racionalmente o que está vendo. Ela é sensorial, imediata, emocional. Mas justamente por isso, ela precisa ser orientada. O desenho cumpre essa função: educa o olhar, organiza o pensamento, desenvolve a capacidade de observação. Forma o espírito. E só depois dessa formação a cor pode atingir sua verdadeira potência expressiva.

É por isso que os fauvistas foram tão mal compreendidos. Muita gente olhava pras cores violentas e pensava que eram arbitrárias, espontâneas, quase infantis. Matisse está dizendo exatamente o contrário: a liberdade da cor foi conquistada depois de anos de disciplina. O vermelho de um interior, o azul de um rosto, o verde de uma sombra não são escolhas impulsivas. São decisões conscientes, sustentadas por uma longa formação visual.

Os Vermelhos de Matisse. Incomparável.

E tem ainda uma camada a mais. Quando ele fala em conduzir a cor pelos caminhos espirituais, está dizendo que o artista não pinta a cor que vê. Pinta a cor que traduz sua relação com aquilo que vê. Isso é o que separa o Impressionismo do Fauvismo: os impressionistas estavam respondendo à pergunta "que cor a luz produz sobre este objeto?". Matisse estava respondendo a outra: "que cor expressa melhor minha experiência diante deste objeto?".

Quando eu estava na faculdade de Artes Plásticas, lá em 94 ou 95, e precisei apresentar minhas pinturas numa aula, tive que justificar o que estava me inspirando naquele momento: os amarelos de Van Gogh e os vermelhos de Matisse. E coloquei também a música que mais amo na vida, My Favorite Things, do John Coltrane. Jazz. Não foi uma escolha aleatória. Era o que eu estava sentindo de verdade.

Ninguém faz vermelho como Matisse. E ninguém faz amarelo como Van Gogh. E olha que eu continuo, depois dessa exposição, acreditando exatamente nisso ainda. Claro que tem muitos outros artistas, mas nada me encanta, me emociona tanto quanto essas cores nesses dois artistas. São cores que têm uma temperatura interna, uma resposta, que vai além da pigmentação, além da técnica. São sensações organizadas depois de muito trabalho, muito olhar.

Essa distinção é o que separa quem apenas usa cor de quem entende cor.

Os últimos treze anos e a tesoura

A exposição do Grand Palais cobre os últimos treze anos da vida de Matisse, de 1941 a 1954. São mais de trezentas obras: pinturas, desenhos, colagens, livros ilustrados, vitrais, têxteis. E o que ela mostra é que esse período que poderia ter sido de recolhimento foi exatamente o contrário.

Em 1941, Matisse sobreviveu a uma cirurgia gravíssima. Os médicos do hospital de Lyon o chamaram de "o ressuscitado". Ele tinha mais de setenta anos, estava fisicamente debilitado, passaria boa parte do tempo numa cadeira de rodas ou na cama. Foi nesse contexto que desenvolveu a técnica que o tornaria mais livre do nunca: as colagens com papel pintado.

Os pincéis ficaram difíceis de segurar. Então ele pegou tesouras. Cortava diretamente nas folhas de papel pintado com guache, sem desenhar antes, sem contorno prévio. A linha e a cor nasciam no mesmo gesto. O corpo de Zulma, de 1950, é feito assim. La Gerbe, de 1953, também.

E tem o Jazz. Publicado em 1947, o livro reúne vinte colagens de Matisse acompanhadas de textos escritos à mão, numa caligrafia que ele mesmo desenvolveu como contraponto visual às formas recortadas. Na exposição do Grand Palais, essa seção tem fundo musical. Entrei naquele espaço e me lembrei imediatamente do Coltrane na minha apresentação, de como o jazz também funciona assim: estrutura e liberdade ao mesmo tempo, forma e improviso que se alimentam um do outro. Matisse escolheu o nome Jazz porque era isso que as colagens tinham: o ritmo de quem sabe tanto que pode se libertar das regras sem perder o fundamento.

Limitação e liberdade. As duas coisas, podem sim andar juntas.

Almodóvar e suas referências de cor

A paleta de Pedro Almodóvar é inconfundível. Cores carregadas, deliberadas, que não existem por acaso num quadro. O próprio diretor de fotografia de O Quarto ao Lado (2024), Edu Grau, descreveu numa entrevista à ARRI que a cor é central no cinema de Almodóvar, que as escolhas são ousadas e vibrantes, e que a colaboração entre figurino, direção de arte e maquiagem é a alma de qualquer filme dele.

Mas de onde vem essa obsessão?

Almodóvar olhou muito. Edward Hopper, com o uso da luz e da cor pra construir solidão e tensão silenciosa. Giorgio Morandi, com as naturezas mortas onde a cor trabalha na contenção e na profundidade. Diego Velázquez, com a precisão de quem faz a cor servir à composição com uma economia que não chama atenção pra si mesma. São referências que o próprio diretor citou ao longo dos anos, em entrevistas e na sua prática fotográfica paralela.

O repertório de Almodóvar é vasto. E é esse repertório que faz a paleta dele funcionar.

O que me veio, saindo do Grand Palais naquela noite, foi isso: a minha aluna tem um ponto de partida excelente. E esse ponto de partida pode ser muito mais largo. Atrás de Almodóvar tem Hopper e Morandi e Velázquez. E antes deles tem Matisse. Claro que eu compartilhei isso com ela e tenho certeza que ela me ouviu.

Zulma, de 1950.

A lente de abertura

Uma coisa que aparece com frequência na Mentoria Rizoma é a tendência de buscar referências dentro do próprio campo. Arquitetos olham arquitetura. Designers olham design. Isso faz sentido até certo ponto, mas é no momento em que você sai do seu campo, quando você vai ver Matisse sendo arquiteta de interiores, quando você percebe que a paleta de Almodóvar tem raízes fincadas na pintura europeia do século XX, que o repertório começa a trabalhar de verdade pra você.

É o que posso chamar de lente de abertura. Uma coisa inspira outra, que desencadeia uma conexão que você não teria chegado por outro caminho. Repertório ampliado é uma ferramenta de trabalho. É o que permite fazer conexões que ninguém mais vai fazer, porque ninguém mais percorreu exatamente o mesmo caminho.

A minha aluna vai continuar usando Almodóvar. Mas agora ela também tem Matisse. E Matisse tem Cézanne, e Cézanne tem os venezianos, e os venezianos têm séculos de conversa sobre luz e cor que ainda podem dar muito pano pra manga.

Uma porta abre outra. E outra. E outra.

Informações práticas

Matisse. 1941–1954Grand Palais, Paris 24 de março a 26 de julho de 2026 Terça a domingo, das 10h às 19h30 Nocturnas até as 22h às sextas e às quartas (a partir de 27 de maio) Ingressos a partir de €20,50 | Gratuito para menores de 18 anos Reserva online recomendada: grandpalais.fr

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