Do vinil ao tijolo: o que os objetos guardam que as imagens não conseguem contar

A feira Art Paris no Grand Palais

Na semana passada a gente instalou o toca-discos na sala de casa. Junto com o amplificador, as caixas de som e o leitor de CD (que a namorada do meu filho emprestou) e que agora faz parte do set musical. Aquele pedaço da sala virou um lugar dedicado à escuta, com os vinis, o aparelho no móvel, tudo ligado e pronto pra funcionar quando você quiser parar pra ouvir música de verdade.

E junto com essa pequena mudança vieram os gestos. Ligar o amplificador na ordem certa antes do resto. Tirar o disco da capa com cuidado. Limpar o vinil. Baixar a agulha na picape. Virar o lado no meio da audição. O chiado que vem antes da música começar, aquele segundo de silêncio cheio que é um aviso à escuta. Isso tudo veio com uma nostalgia, a lembrança de movimentos que eu fazia quando era pequena nas casas dos meus pais. Os discos que eram hit parade, que quase furavam de tanto a gente ouvir. 

Por que nesses últimos anos, como quase toda humanidade, eu ouvi música por caixinhas que cabem na palma da mão, por aplicativos que têm um acervo que seria inimaginável há vinte anos. Mas o que ficou claro na semana passada é que eu tinha esquecido completamente esses movimentos. Eram gestos que fazem parte de uma relação com a música que não é só de escuta. É de cuidado. O objeto pede atenção. Ele não funciona se você não estiver presente.E é exatamente aí que a semana toda começou a se costurar.

Na terça: a música que dobra o tempo

Na terça-feira fui à abertura do 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, no L'Arlequin, em Saint-Germain-des-Prés. O filme da noite foi o documentário Da Lata – 30 Anos, de Paulo Severo, sobre o álbum que Fernanda Abreu lançou em 1995 fundindo samba, funk carioca, hip hop e a influência do soul britânico num som que mudou a música pop brasileira de um jeito que a crítica ainda não terminou de mensurar. Fernanda estava presente, e eu pude agradecer a ela pessoalmente por esse documentário e me lembrar o quanto eu gostava da sonzeira desse disco.

Da Lata foi parte da minha vida nos anos 90. Rever aquele material numa sala de cinema em Paris, trinta anos depois, fez o que a música faz quando ela tem história: transporta. A gente se projeta, vai e volta no tempo sem sair do lugar. Desde então tenho ouvido o disco no carro sempre que posso.

Eu e a garota carioca swing sangue bom Fernanda Abreu

E faz sentido que o projeto dos 30 anos inclua um relançamento em vinil. Tem a mesma lógica do toca-discos lá em casa: a música que volta a ter uma forma, um peso, um lado A e um lado B.

Na Art Paris: promessas e cor

Na quinta-feira eu passei o dia inteiro entre a Art Paris e o PAD, dois eventos que acontecem simultaneamente em Paris nessa época do ano e que têm espíritos bem diferentes.

Nas duas feiras fiz o que sempre faço: entrei sozinha, sem agenda, sem pressa de chegar. Dou minha primeira volta em silêncio. Observo e absorvo antes de perguntar. Deixo as obras me atravessarem. Só depois, quando um trabalho continua me chamando depois que já passei, é que eu volto e pergunto. Não sei se isso é método ou temperamento. Provavelmente os dois.

A Art Paris fica na Grand Nef do Grand Palais e é a grande feira de arte da primavera parisiense. Nesta edição de 2026, com 165 galerias de 25 países, ela voltou com coisinhas que me chamaram a atenção: uma diminuição na escala de algumas obras. Menos peças muito monumentais, mais séries, mosaicos de trabalhos menores que funcionam juntos ou separados. Tem uma leitura econômica óbvia nisso, mas tem também outra: a obra menor aproxima o colecionador iniciante, torna o ato de colecionar algo que não depende de parede enorme e nem de mega orçamento.

O segundo andar do Grand Palais é o que a Art Paris traz de mais legal. De um lado, o setor Promesses, dedicado a galerias jovens com menos de dez anos de existência. Foi lá que vi o solo show do Ian Salamente na galeria Salon H. Salamente é um pintor brasileiro de Cabo Frio que mora no Rio e que desenvolve uma pintura figurativa intensa, com sal cristalizado, fragmentos de cultura popular. Uma iconografia muito própria, com uma força visual surpreendente. Fico feliz toda vez que vejo um artista brasileiro sendo bem apresentado aqui em Paris.

Do outro lado do segundo andar fica a seção de design. A India Mahdavi Editions participou pela primeira vez da Art Paris nesta edição, com uma seleção de peças que mistura trabalhos recentes e mais antigos. É o que ela sabe fazer lindamente: a acumulação de formas e blocos de cor que cria uma saturação visual deliberada, quase teatral. Sou apaixonada pelo trabalho dela. Tem uma alegria e uma sofisticação que trazem cor com intenção.

E perto estava o Andrée Putman Studio, numa participação que é também um gesto de memória: 2026 é o ano do centenário de Andrée Putman, a grande decoradora francesa que morreu em 2013 e cujo legado o estúdio, conduzido hoje por Aurélie Laure e pela filha Olivia Putman, segue honrando. Estavam lá peças do arquivo que parecem ter sido feitas ontem: a Table Mille et un Carré, as mesas Trois Carats et Demi, a Lampe Compas dans l'oeil. Um design que atravessa décadas e continua atemporal.

No PAD: o que o Atlântico guardou

Do Grand Palais eu fui direto pro PAD, que fica no Jardin des Tuileries. O PAD é uma feira que nasceu em Londres em 1998, foi trazida pra Paris e que trabalha nesse território preciso entre arte e design, onde um objeto pode ser peça única, escultura, mobiliário ou as três coisas ao mesmo tempo.

O surpreendente trabalho escultórico de Théophile de Bascher na Theoreme Editions

Nesta edição de 2026, o que ficou como tendência mais clara foi o retorno à matéria. Móveis de mármore e granito, objetos em pedra com peso e intenção, materiais orgânicos que lembram solo, fio, tecido. Há uma tendência acontecendo aí, uma espécie de reação ao excesso de imagem leve e descartável dos últimos anos. O objeto mais pesado está de volta como argumento estético.

Tinha também as cerâmicas do Picasso no estande de uma galeria, expostas numa parede laranja. Já vi cerâmica de Picasso de tudo quanto é jeito. A primeira vez foi numa exposição que me marcou muito, ainda no Rio, na Casa França Brasil, quando eu era bem jovem. Foi a primeira vez que eu vi essas peças com esse tipo de cenografia, com a parede laranja dando esse destaque expográfico, e a diferença de contraste é brutal. A cor transforma cada peça. Isso me lembrou mais uma vez do que se perde quando a gente substitui a visita pelo scroll: a escala, a presença, o que o objeto faz no espaço ao redor.

E aí, no estande da Theoreme Editions, eu parei. A Theoreme é uma maison de edição parisiense que trabalha com designers e artesãos nesse mesmo território de objeto e obra. Já tinha visto o estande deles outras vezes. E sempre havia ali umas esculturas de tijolo que me instigavam sem que eu soubesse exatamente o quê era. Orgânicas, com o reboco aparente, lindas de uma forma que eu não conseguia ainda nomear. Na quinta-feira eu fui até lá e perguntei.

O trabalho é do Théophile de Bascher, escultor e designer formado pela ENSAD em Paris. O Havre, cidade na costa da Normandia, foi quase inteiramente destruída pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. As casas foram ao chão. Os escombros foram ao mar. E durante 80 anos o Atlântico foi lapidando esses fragmentos de tijolo, de reboco, de arquitetura perdida. Até que começaram a aparecer de volta nas praias. De Bascher foi recolhê-los.

O que ele faz com esse material é transformá-lo em objetos escultóricos que guardam tudo: a memória de uma cidade destruída, oito décadas de erosão natural, e o gesto de mãos que reconheceram ali uma matéria com história pra contar.

Fiquei muito tempo na frente dessas peças. Tem um peso específico nelas que não é só físico. É a memória de uma guerra, é o trabalho silencioso do oceano, é o ato de alguém que foi à praia e perguntou: o que é isso que tá chegando aqui?

Esse é o processo do artista. E é esse tipo de coisa que a gente aprende quando vai a uma feira e para pra perguntar.

O que a gente está ensinando quando diz "vai à feira"

Na sexta-feira eu tive uma sessão do Acompanhamento Módulo com uma artista que estou orientando. Ela está desenvolvendo um corpo de trabalho muito pessoal, ligado à esfera doméstica, ao retrato, à fotografia como insumo pra pintura e pra desenho. Um trabalho delicado, com muita coisa já acontecendo.

Em algum momento a gente estava falando sobre a importância de frequentar feiras de arte, e por que isso não é simplesmente uma visita cultural. Você vai a uma feira pra entender como os trabalhos são apresentados. Como uma galeria monta uma expografia. Que decisões foram tomadas de iluminação, de escala, de proximidade entre as peças. O que uma obra precisa ao redor dela pra funcionar. 

E eu pensei no artista do Havre. O que me fez parar na frente daquelas esculturas foi exatamente isso: a presença física do objeto no espaço. A escala. O peso que você sente antes mesmo de tocar. Se eu tivesse visto uma foto dessas peças apenas lá no Instagram, provavelmente teria achado bonito, legal, mas passado o dedo e seguido em frente.

A outra coisa que a conversa trouxe foi a questão do discurso. Não é à toa que De Bascher tem uma história pra contar sobre o trabalho. Quando eu soube da origem dos tijolos, quando entendi o que aquela matéria guardava, o trabalho ganhou outra dimensão. O discurso e o objeto passaram a se responder. Isso é uma das coisas mais difíceis de construir. E é fundamental.

O que Berger viu no fim do livro

Hoje é sábado e estou terminando Modos de Ver. Cheguei no último ensaio, que é sobre publicidade. John Berger mostra como a linguagem visual da pintura a óleo, desenvolvida entre 1400 e 1900, foi herdada pela publicidade do século XX: a mesma capacidade de tornar as coisas tangíveis, de fazer o objeto parecer que pode ser possuído. A pintura a óleo celebrava o que o sujeito já tinha. A publicidade promete o que ele ainda vai ter. O mecanismo do desejo é o mesmo. O que muda é a direção.

O que o algoritmo faz hoje é exatamente isso, mas na velocidade máxima e sem pausa. Um bombardeio de imagens que nunca para, que não pede atenção prolongada, que funciona na lógica do deslize.

A gente pensa no contraste com o chiado do vinil e os rituais perdidos, agora reencontrados.

Não estou romantizando o analógico nem condenando o digital. Amo os dois. Mas tem uma pergunta que ficou depois dessa semana toda: o que acontece com o olhar quando a gente desacelera o suficiente pra perceber o que um objeto guarda? O toca-discos voltou a ocupar um lugar na sala. De Bascher foi à praia e perguntou o que estava chegando. A artista com quem conversei na sexta fotografa as pessoas que ama antes de pintá-las. Berger passou a vida tentando ensinar a gente a ver antes de nomear.

São gestos diferentes com a mesma direção: a ideia de que ver de verdade pede presença. Pede que você esteja realmente lá.

Fontes consultadas:BERGER, John. Modos de Ver. Editora Rocco, 1999.Theoreme Editions: theoremeeditions.com

Informações práticas:

Art Paris 9 a 12 de abril de 2026 Grand Palais, Nef, Paris artparis.com

PAD Paris 8 a 12 de abril de 2026 Jardin des Tuileries, Paris pad-fairs.com

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