O ateliê como chave de entendimento da obra

Janela do quarto de Monet na casa dele em Giverny

Em 2005, numa viagem a Nova York, tive a oportunidade de fazer uma visita guiada ao Pollock-Krasner House and Study Center, em Springs, East Hampton. O ateliê de Jackson Pollock e Lee Krasner é hoje um espaço preservado e aberto ao público, e o que me ficou mais vivo da visita, além da emoção de estar visitando o espaço, foi uma porta. A porta de dimensões desproporcionais em relação ao ateliê nos fundos da casa, larga demais, alta demais pra construção de madeira. Uma porta que só faz sentido quando você entende que era por ela que passavam as telas de grande formato das sessões de action painting. O espaço foi construído pra funcionar como a escala da obra exigia.

Essa visita me marcou bastante, especialmente na forma como leio arte desde então. Não no sentido de uma revelação, mas de uma perspectiva que se acrescenta: a do espaço onde a obra foi feita. Nas últimas semanas visitei dois lugares que reativaram isso com força, a Fundação Arp, em Clamart, e a casa de Claude Monet, em Giverny. Interessante entender o que esses espaços guardam e o que se ganha quando a gente cria o hábito de visitar não só a obra, mas o lugar onde ela nasceu.

Preservar o espaço de trabalho de um artista é um ato historiográfico. O que um ateliê conserva, quando sobrevive, é a evidência do processo: a escala das obras em relação ao corpo de quem as fez, a qualidade da luz em determinada hora do dia, a relação entre o espaço de pensar e o de executar. É o contexto material da criação, e esse contexto age sobre o trabalho.

Clamart: arquitetura como programa estético

A Fundação Arp fica em Clamart, nos arredores de Paris, numa rua arborizada a beira da floresta de Meudon. De fora, a casa parece discreta, quase anônima: meulière, pedra escura típica da região. Por dentro, é outra história.

A casa que Sophie Taeuber-Arp projetou integra a obra do casal com a mesma coerência das composições visuais dela. O terreno foi comprado em 1926 com os valores recebido pelo projeto do Café de l'Aubette, em Strasbourg, que Sophie assinou junto com Jean Arp e Theo van Doesburg. A construção foi concluída em 1929. Cada decisão espacial da casa, a distribuição dos cômodos, as proporções, o mobiliário desenhado por ela, o bureau de okoumé com laca automotiva pra maior resistência, traduz o mesmo vocabulário das suas composições visuais: funcionalidade sem ornamento, geometria que organiza sem enrijecer, forma que serve à vida sem abrir mão do rigor.

Sophie era arquiteta, designer, tecelã e pintora. Uma das figuras centrais do Dadaísmo e do que ficaria conhecido como Arte Concreta, uma prática que elimina a representação e constrói a obra apenas com elementos visuais puros. Linha, cor e forma deixam de descrever o mundo e passam a existir como realidade em si. Seu método partia de uma lógica estrutural rigorosa: grades, ritmos, composições em módulo. A crítica demorou décadas pra reconhecer o alcance do trabalho dela fora da sombra de Jean, e foi só em 2021, com a exposição do Kunstmuseum Basel, que um museu de grande porte lhe deu a centralidade que merecia.

Escrivaninha e cadeira projetadas por Sophie Taeuber-Arp em Clamart

Jean trabalhava a partir de um princípio que ele próprio descrevia como “constelação”. O ponto de partida era um repertório de formas recortadas, produzidas ao longo do tempo em desenhos, colagens e estudos. Essas formas não eram definitivas. Funcionavam como um vocabulário em permanente circulação. O processo começava muitas vezes com o acaso. Papéis eram rasgados e deixados cair sobre uma superfície. A disposição inicial não era controlada. Arp aceitava essa organização espontânea como um dado de partida. A partir daí, entrava uma segunda etapa decisiva. Ele observava, deslocava, retirava e recombinava os elementos. O acaso abria o campo. A escolha estruturava o resultado. O que parece livre é, na verdade, um processo de edição contínua.

Essas formas recortadas migravam entre meios. Um fragmento podia nascer como colagem, virar relevo em madeira e depois se transformar em escultura. O trabalho não tinha um ponto final fixo. Uma obra podia gerar outra por divisão, ampliação ou recombinação de partes.  O que ele constrói é um sistema aberto. As formas se organizam como constelações. Não existe centro estável. A relação entre elas produz um campo visual em expansão, próximo dos ritmos da natureza, como crescimento, metamorfose e variação.  As curvas orgânicas evocam corpo, célula e paisagem. Mas não representam diretamente nada. Arp busca operar como a natureza. Em vez de imitar, ele produz formas segundo princípios de transformação e continuidade.

Os ateliês ocupavam níveis distintos da mesma casa. Essa proximidade cria um circuito permanente de troca. Cada prática atravessa a outra. A arquitetura organiza essa relação. Eles compartilhavam o espaço de viver mas preservavam a autonomia do espaço de criar, um sobre o outro, cada um com sua lógica interna. A influência era constante, sem chegar a fusão. Jean reconhecia que Sophie havia lhe revelado a essência da forma, e o cruzamento entre a estrutura geométrica dela e o organicismo dele é legível nas obras dos dois ao longo dos anos de Clamart. Quando Sophie morreu em 1943, asfixiada por um vazamento de gás numa casa de amigos na Suíça, pra onde o casal havia fugido durante a Ocupação, Jean ficou sem trabalhar por anos. Quando retomou, foi em parte a partir do trabalho dela: de um colagem que Sophie fizera em 1916, ele criou em 1965 a escultura Bonhomme. O diálogo continuou para além da morte dela.

Fundação Arp em Clamart

Visitar Clamart hoje é visitar a evidência material desse processo compartilhado. A Fundação conserva parte considerável do acervo dos dois e recebe exposições temporárias. O que o espaço oferece é algo que um museu convencional dificilmente alcança: a compreensão de como dois vocabulários formais muito distintos coexistiram e se alimentaram mutuamente durante mais de uma década de trabalho cotidiano no mesmo lugar.

Giverny: o jardim como laboratório e como obra

Giverny é outra escala. A casa de Claude Monet recebe algo em torno de 750 mil visitantes por ano. É o segundo lugar mais visitado da Normandia, depois do Mont-Saint-Michel. As séries pintadas ali estão entre os trabalhos mais importantes do final do século XIX e início do XX, e o lago foi construído por Monet em 1893, com oposição dos vizinhos, que amavam o terreno e queriam que ele ficasse intcato.

O que menos se fala é a história de abandono que precedeu o que existe hoje. Monet se instalou ali em 1883, alugou e depois comprou a propriedade em 1890, e transformou o jardim num projeto estético de longa duração que funcionava simultaneamente como laboratório e como obra. O jardim era planejado com critérios pictóricos: Monet pensava as combinações de cores e a sucessão de florações como quem compõe uma tela. Em 1893, comprou o famoso terreno vizinho e construiu o jardim aquático, com o lago e a ponte japonesa, que se tornaria o universo visual das grandes séries das Nymphéas.

Historicamente, Monet chegou a construir um grande ateliê no final da vida pra abrigar os painéis monumentais das Nymphéas, obras que exigiam escala e luz específicas. O que a Fundação Claude Monet preservou e abriu ao público é a casa, os jardins, e um ateliê menor ao lado da casa que foi convertido em loja da fundação. A decisão de transformar o espaço de trabalho em área comercial é em si reveladora: os critérios que orientam a preservação de espaços artísticos raramente são puramente historiográficos.

O que Giverny oferece, portanto, é uma reconstrução meticulosa de um ambiente de vida e de inspiração, sem que o espaço de produção tenha sido preservado na mesma medida. Monet morreu ali em dezembro de 1926. O filho, Michel, preferiu safáris na África à manutenção da propriedade.

Quem ficou por lá foi Blanche Monet-Hoschedé, enteada e nora do pintor, e a única aluna direta que ele formou. Blanche havia trabalhado com Monet no dia a dia, acompanhado o processo de perto, e possivelmente colaborado na execução dos grandes painéis das Nymphéas no período final, quando a visão dele estava comprometida. Era, como ele, pintora. Conhecia o trabalho profundamente. Cuidou da casa e dos jardinspraticamente sozinha até falecer, em 1947, e é em grande parte por conta desse cuidado que qualquer coisa sobreviveu o suficiente pra ser restaurada depois.

A famosa ponte japonesa dos jardins de Giverny

Com a morte de Blanche, o jardim ficou à própria sorte. Michel morreu em 1966 num acidente de carro, sem herdeiros, e legou tudo à Académie des Beaux-Arts, que não tinha recursos suficientes pra uma restauração à altura. O jardim foi tomado pelo mato, as janelas quebraram, a ponte japonesa apodreceu.

Em 1977, Gérald Van der Kemp, que havia dirigido a restauração de Versalhes, assumiu a missão. Ele e a esposa buscaram mecenas, principalmente americanos, e a restauração durou três anos. A casa, os ateliers, o mobiliário e as estampas japonesas foram recuperados; o jardim foi refeito a partir de arquivos, fotografias e memória de quem havia conhecido o espaço em vida. Em 1980, a Fundação Claude Monet foi criada e o espaço abriu ao público e lotam até hoje tendo transformado a economia local.

As obras originais de Monet não estão em Giverny. Estão no Musée Marmottan Monet e no Musée de l'Orangerie. O que Giverny preserva é o contexto espacial do processo: as estampas japonesas que Monet colecionou e que são fundamentais pra entender sua estética (a coleção tem cerca de 250 estampas, com obras de Hokusai e Hiroshige), a cozinha de azulejos azuis, a sala de jnatar amarela, e o jardim, que é em si uma obra de arte que continua viva porque precisa ser cultivada todos os dias.

Uma perspectiva íntima sobre a obra

Cada um desses espaços, Springs, Clamart, Giverny, oferece algo distinto. Em Springs, é a escala bruta, a porta larga demais que diz muito sobre o trabalho no ateliê. Em Clamart, é a sobreposição de dois métodos radicalmente diferentes num mesmo espaço doméstico, e a conversa silenciosa que essa convivência produziu nas obras. Em Giverny, é a dissolução da fronteira entre o jardim e a tela, o artista que constrói o próprio motivo pra depois pintá-lo repetidamente por décadas.

Criar o hábito de visitar não só a obra mas o espaço onde ela foi feita, amplia a leitura de um jeito que uma fotografia ou um museu convencional raramente alcançam. O ateliê guarda a intimidade da execução, a escala real, as decisões materiais registradas nas paredes e nas proporções. O ateliê é um arquivo de idéias do artista, e onde a obra começa. Pelo visto tô com saudades de ter de novo um ateliê.

Informações práticas


Pollock-Krasner House and Study Center, East Hampton 830 Springs-Fireplace Road, East Hampton, NY 11937 Visitas guiadas sob agendamento entre maio e outubro. https://www.pkhouse.org/en/home

Fundação Arp, Clamart 21, rue des Châtaigniers, 92140 Clamart Visitas às sextas: 14h30 e 16h / Sábados e domingos: 14h30, 15h30 e 16h30 Ingresso: 9€ / 7€ (estudantes) / gratuito para menores de 10 anos fondationarp.org

Maison et Jardins de Claude Monet, Giverny 84, rue Claude Monet, 27620 Giverny Aberto de 1 de abril a 1 de novembro, todos os dias das 10h às 18h Ingresso: 13€ / 7€ (7 a 17 anos e estudantes) / gratuito para menores de 7 anos claudemonetgiverny.r

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