Veneza em tons menores
Os vestígios da dupla libanesa Joana Hadjithomas e Khalil Joreige no Arsenale
Não tem evento no mundo da arte que eu mais espere do que a Bienal de Veneza.
Fui pela primeira vez em 2013, com as crianças ainda bebês, e quem tem filho pequeno sabe como é: a atenção fica muito mais neles do que nas obras. Em 2022 a Bienal virou um programa a dois com o meu marido, e ir a Veneza especialmente pra isso já é quase um hábito nosso. Este ano voltei com os meus filhos, agora adolescentes, e foi outra experiência, pela companhia deliciosa deles e pelo calor extremo do verão europeu.
A Bienal é cansativa e muito extensa. Mesmo assim, eles se mostraram abertos a tudo, das instalações às pinturas, das fotografias aos vídeos, e eu fiquei bastante impressionada com a curiosidade que essa visita despertou neles.
Uma Bienal mais enxuta, montada em papelão
A 61ª edição se chama In Minor Keys, algo como "em tons menores", e reúne por volta de 110 participantes na exposição principal. A anterior, Estrangeiros em Todo Lugar, com curadoria de Adriano Pedrosa, tinha 331. Com um terço dos nomes, a fruição fica mais fácil e sobra tempo pra conhecer melhor cada artista.
A mostra foi concebida por Koyo Kouoh, que morreu em maio de 2025, aos 57 anos, de câncer no fígado, antes da abertura. A Bienal decidiu realizar a exposição exatamente como ela pensou, e a equipe que ela tinha reunido terminou o trabalho, da lista de artistas ao catálogo. Saber disso dá outra camada à visita, porque o que se vê ali é a proposta dela levada adiante pela equipe. Na minha opinião, o resultado é maravilhoso, e achei a proposta bem mais clara do que a da edição anterior.
Gostei muito da cenografia, toda de papelão (sim, papelão, e vai uma piscadinha pra quem lembrou da Eva Jospin). O projeto é do estúdio Wolff Architects, da Cidade do Cabo, escolhido pela própria curadora: paredes, totens e pedestais de papelão grosso sustentam as obras. A escolha conversa com o que atravessa a mostra inteira, o trabalho feito à mão, a pintura.
Entre o Arsenale e o Giardini: mão, linha e ritual
Começamos pelo Arsenale, que no fim das contas eu sempre prefiro ao Giardini. Este ano achei o percurso mais bem construído do que o de 2024, com um equilíbrio maior entre os dois espaços e destaque para os artistas. Na edição anterior, a fachada do Pavilhão Central pintada pelo MAHKU, o Movimento dos Artistas Huni Kuin, foi um dos destaques, mas o excesso de artistas desequilibrava o conjunto geral e eu não vi nenhuma proposta de discussão para o futuro. Mas, mais uma vez essa é a minha opinião.
É uma Bienal de muito trabalho à mão, muita pintura e muito têxtil. A diáspora africana está bem representada, e a magia, o ritual e a cor dão o tom geral.
Foi ali que descobri Ayrson Heráclito, artista nascido em Macaúbas, na Bahia, em 1968, que vive em Salvador. Gente, que trabalho lindo. Ele apresentou um conjunto da série Juntó, aquarelas e esculturas em aço inoxidável sobre as insígnias e ferramentas do panteão do Candomblé, a partir da ideia de que um conjunto de entidades preside a cabeça de cada pessoa. A magia dos rituais das religiões de matriz africana, que está no centro desse trabalho, aparece em muitos outros pontos da mostra.
Ainda no Arsenale, conheci o Guadalupe Maravilla, artista nascido em San Salvador em 1976, que aos oito anos atravessou sozinho a fronteira dos Estados Unidos fugindo da guerra civil e que, adulto, enfrentou um câncer. No centro da instalação estão quatro esculturas da série Disease Thrower, que ele concebe ao mesmo tempo como altares e como instrumentos de cura que podem ser tocados, montadas com elementos feitos à mão e objetos que ele recolheu refazendo o seu trajeto pela América Central. Do teto pendem cinco grandes redes, dessas de deitar que a gente conhece tão bem no Brasil, cada uma com um verso de uma cantiga que se canta pras crianças quando elas se machucam: sana, sana, colita de rana, si no sanas hoy, sanarás mañana. Em português ela tem as suas adaptações, e a minha mãe cantava pra mim quando eu me machucava, pequenininha. O trabalho traz essa dimensão da dor e do consolo das crianças, e por isso me chamou tanto a atenção. Uma exposição dele de 2024 leva justamente o último verso no título, Si no sanas hoy, sanarás mañana. Achei muito impressionante o trabalho dele como um todo.
Também gostei muito da dupla libanesa Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, que vive entre Beirute e Paris. Em Time Capsules (2017), eles mostram amostras de escavações de Beirute, Paris e Atenas, extraídas com a ajuda de arqueólogos e geólogos e fixadas numa resina experimental, dentro de cilindros verticais. É um trabalho muito bonito que fala sobre vestígios, tempo, camadas.
E no Giardini, a primeira imagem que se vê ao entrar no Pavilhão Central é a fantasia de plumas e miçangas de Big Chief Demond Melancon, líder dos Young Seminole Hunters, de Nova Orleans. Ele é uma das figuras centrais da tradição dos Black Masking Indians, os grupos que desfilam no Carnaval da cidade com roupas bordadas à mão. Pra quem cresceu no Brasil, a lembrança das fantasias do nosso carnaval vem imediatamente.
Também no Pavilhão Central está o pintor de Gaza Mohammed Joha, nascido em 1978 e hoje morando em Marselha, com a série Sem Abrigo (No Shelter), feita enquanto ele acompanhava pela tela a destruição da cidade. A série reúne colagens, em que ele sobrepõe à tela papel, papelão e tecido descartados, uma técnica que vem do dia a dia dos moradores de Gaza, presos num ciclo de destruição e reconstrução. E reúne também aquarelas, paisagens de Gaza em pinceladas suaves e com pouco detalhe, tão bonitas que chegam a lembrar Cézanne. Aliás, a exposição que abriu no Grand Palais dele é uma das mais completas que eu já vi. Mas isso é conversa pra outro texto.
Olhando pra esses trabalhos juntos, senti uma relação forte com a história da arte. Maravilla junta objetos recolhidos pelo caminho, Hadjithomas e Joreige guardam vestígios de escavações, Joha recompõe Gaza com materiais descartados. Essa lógica do acúmulo, do recolhimento e da junção tem muito a ver com o colecionismo e lembra até um pouco o Dadá, quando artistas como Kurt Schwitters começaram a construir obras com bilhetes, papéis e restos recolhidos na rua.
E olha a coincidência: acabou de abrir aqui em Paris, no Museu Picasso, a retrospectiva Kurt Schwitters. Le chaos-monde 1918–1948, organizada em parceria com o MoMA de Nova York. São mais de trezentas obras e documentos, entre colagens, assemblages, pinturas, cadernos e fotografias, e a exposição também põe Schwitters em diálogo com o próprio Picasso na transformação dos materiais do cotidiano. Já tô doida pra visitar.
Entre os nomes mais conhecidos que também se arriscam nas artes visuais, gostei muito da Laurie Anderson, que tem duas instalações na mostra, principalmente do trabalho dela com as palavras. Já o trabalho de Nick Cave, não me convenceu, achei meio cafona… Mas mais uma vez, isso sou eu e meu gosto.
Os pavilhões nacionais, entre o corpo e as mãos
O pavilhão que mais me emocionou foi o da Índia, no Arsenale, que voltou à Bienal depois de sete anos fora com Geografias da Distância: Lembrando o Lar (Geographies of Distance: Remembering Home), com curadoria de Amin Jaffer. São cinco artistas, Alwar Balasubramaniam, Sumakshi Singh, Ranjani Shettar, Asim Waqif e Skarma Sonam Tashi, trabalhando com barro, linha, bambu e papel machê. Sumakshi Singh reconstrói em linha uma casa de família que foi demolida, e é de uma delicadeza rara.
No pavilhão do Japão, Ei Arakawa-Nash convida o público a carregar 208 bonecos de bebê pelo térreo, pelo jardim e pelo interior, em Bebês de Grama, Bebês de Lua (Grass Babies, Moon Babies), com curadoria de Lisa Horikawa e Takahashi Mizuki. No fim do percurso há uma estação onde o visitante troca a fralda do boneco e escaneia um QR code que leva a um "poema de fralda". Vi ali uma crítica tratada com humor, e foi o pavilhão em que meus filhos mais se divertiram (adolescentes trocando fralda de boneco em plena Bienal, imagina).
Na Áustria, a performance de Florentina Holzinger em Seaworld Venice tem muito impacto visual. Um sino de bronze fica pendurado num guindaste diante do pavilhão e toca a cada hora: uma performer nua entra nele, fica de cabeça pra baixo e usa o próprio peito como badalo. Japão e Áustria, cada um do seu jeito, colocam o corpo no centro. Achei a proposta austríaca interessante, mas ela fica muito no instagramável, (quase um meme) e do espetáculo do que da arte no sentido de emocionar. Me impactou, mas não me emocionou.
No pavilhão da Espanha, que reabriu este ano depois de uma reforma completa, Oriol Vilanova apresenta Los restos (Os restos), com curadoria de Carles Guerra. Há mais de vinte anos ele coleciona cartões-postais garimpados em mercados de pulgas e lojas de segunda mão, e aqui eles cobrem as paredes numa composição mural contínua. É mais um trabalho movido pela lógica do acúmulo, e me lembrou na hora o Schwitters. Tudo é organizado com muito cuidado, os cartões se aproximam pelas cores, e o resultado é lindo. Foi um dos pavilhões de que eu mais gostei.
E tem o Brasil. Comigo ninguém pode reúne Rosana Paulino e Adriana Varejão num pavilhão que ocupa o prédio inteiro, com curadoria de Diane Lima e expografia de Daniela Thomas. O título vem da planta tóxica que virou símbolo de proteção e resistência.
A polêmica dos Leões
Teve barraco, greve e polêmica, e a história ainda não terminou. O júri internacional, escolhido por Kouoh, era presidido pela brasileira Solange Farkas, fundadora e diretora artística da Associação Cultural Videobrasil e um nome importantíssimo no Brasil, principalmente na área do vídeo. Em 22 de abril, o júri anunciou que não consideraria pros Leões de Ouro e de Prata os pavilhões de países cujos líderes são alvo de mandados do Tribunal Penal Internacional, o que deixava Rússia e Israel, ambos presentes na Bienal, fora da disputa. Em 30 de abril, o júri inteiro renunciou. Nenhum dos lados explicou a saída em detalhe, mas a posição dos jurados batia de frente com a do presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, que tinha mantido a participação russa e defendia a Bienal como espaço de convivência sem censura. A renúncia veio depois de uma reunião com ele, em meio à pressão do governo italiano, da União Europeia e de Israel.
A organização trocou os prêmios tradicionais por dois Leões do Visitante, votados pelo público, um pra melhor artista da mostra principal e outro pra melhor participação nacional, com resultado previsto pro encerramento, em 22 de novembro. Mais de 70 artistas já pediram pra não concorrer. Vamos ver o que vai dar essa confusão toda.
Fora dos Giardini
Ir a Veneza na Bienal continua valendo muito também pela programação paralela.
Nas Gallerie dell'Accademia, Marina Abramović apresentou Energia em Transformação (Transforming Energy), com curadoria de Shai Baitel, a primeira grande exposição de uma artista viva na instituição e a primeira a ocupar também as galerias do acervo permanente. A exposição é espetaculosa, mas acho importante trazer uma artista do tamanho dela, com um trabalho construído ao longo de muitos anos: estão ali Ritmo 0 (1974), Imponderabilia (1977) e Barroco dos Bálcãs (1997), ao lado das camas de pedra com quartzo e ametista, os Objetos Transitórios.
No Palazzo Grassi estava a exposição que mais me impressionou e mais me emocionou nessa viagem: A Promessa de Mudança (The Promise of Change), de Michael Armitage, que reúne obras dos últimos dez anos. Confesso que não conhecia o artista, e amei a exposição.
Armitage nasceu em Nairóbi em 1984 e pinta a óleo sobre lubugo, um tecido de casca de figueira feito pelos baganda, em Uganda. Esse pano é tradicionalmente usado como mortalha nos funerais, e a própria palavra lubugo quer dizer pano funerário. Armitage encontrou o material em 2010, numa loja de turistas em Nairóbi, transformado em jogo americano e porta-copos, e passou anos desenvolvendo uma técnica pra pintar sobre ele. Os furos e as costuras irregulares do tecido entram na composição. Ao pintar sobre esse pano, Armitage devolve a ele o sentido que o comércio de suvenires tinha esvaziado, e gosto muito dessa escolha. O tecido e as aquarelas são emocionantes, e fiquei muito impressionada com a potência narrativa dele: ele conta uma história dentro do quadro, a partir do que viu, e com muita cor.
Na Punta della Dogana, a mesma Pinault Collection mostra duas individuais. Lorna Simpson. Terceira Pessoa, com curadoria de Emma Lavigne, apresenta pela primeira vez na Europa, nessa escala, mais de uma década da pintura de Lorna Simpson. Tenho o maior respeito pelo trabalho dela e achei a exposição muito bem montada e tal, mas também não
Também me emocionou muito a de Paulo Nazareth, Álgebra, com curadoria de Fernanda Brenner. Uma linha grossa de sal atravessa as salas e delimita o chão, desenhando aos poucos a geometria de um navio fantasma, um tumbeiro, como eram chamados os navios negreiros. O espaço está coberto de panos de prato bordados pela mãe dele, com "amor de mãe" escrito em várias línguas (Amor de Mãe, 2026). Nossa, muito emocionante.
O que o repertório faz com o olhar
Faz três edições que acompanho a Bienal de perto, e isso me permite comparar. A proposta de Cecilia Alemani, em 2022, foi a curadoria mais bem amarrada que eu vi, com os núcleos que ela construiu e as cápsulas históricas, que ligavam obras do passado a trabalhos de artistas de hoje. A cidade inteira estava em função do surrealismo, em torno de O Leite dos Sonhos (The Milk of Dreams), título tirado de um livro ilustrado de Leonora Carrington, artista praticamente redescoberta ali.
Da edição de 2024, confesso que saí meio perturbada com o excesso e com a falta de proposta: em Estrangeiros em Todo Lugar, vi o ativismo ocupando muito mais espaço do que a qualidade do trabalho artístico. É uma leitura minha, claro, e ela só existe porque tenho outras Bienais pra pôr do lado.
Quanto mais a gente vê, mais capacidade crítica a gente tem. Repertório serve pra isso, pra afinar o julgamento e o senso crítico, e foi vendo uma Bienal depois da outra que consegui dizer que a de 2026 tinha uma proposta mais clara.
A minha primeira Bienal foi a de São Paulo, em 1989, aos doze anos, onde vi Yves Klein e Paul Klee ao vivo pela primeira vez. Trinta e sete anos depois, vi meus filhos atravessando o Arsenale no calor, curiosos diante de instalações, pinturas, fotografias e vídeos. O repertório de Bienais deles começa agora, e as comparações vão chegar com o tempo.
Ver exposições é um dos vários caminhos pra construir repertório. Eu acredito na história da arte como ferramenta viva, e esse repertório serve depois pro trabalho, pra vida em geral, pra construir senso crítico, afinar o olhar e transformar a nossa sensibilidade.
E é justamente sobre repertório que vamos conversar no dia 21 de novembro. Fui convidada pela minha aluna e amiga Gigi Barreto, da Casa Vida Cenário, pra participar da aula que ela vai dar sobre o tema, e o nome não podia ser mais divertido: Juntando Lé com Cré. Fica aqui o meu convite pra você participar e celebrar com a gente. Inscreva-se aqui.
E vou aproveitar essa oportunidade maravilhosa pra lançar, durante a aula, a plataforma de cursos de história da arte do Conversas sobre Arte. A construção está acontecendo agora, e por isso tenho produzido menos textos por aqui. Mas não tem jeito eu gosto tanto de escrever! No próximo mês vou ficar muito concentrada na produção de conteúdo e em deixar a plataforma o mais incrível possível pros alunos. É um sonho que estou realizando depois de tanto tempo matutando!
Informações práticas
Juntando Lé com Cré: transformando repertório na prática
Aula com Gigi Barreto (CasaVidaCenário), com participação de Lavinia Góes
Sábado, 21 de novembro de 2026, das 10h às 13h (horário de Brasília)
Online e ao vivo
Lançamento da plataforma de cursos de história da arte do Conversas sobre Arte durante a aula
Inscrições aqui
61ª Exposição Internacional de Arte, In Minor Keys
La Biennale di Venezia
De 9 de maio a 22 de novembro de 2026
Giardini e Arsenale, Veneza
Michael Armitage, The Promise of Change
Palazzo Grassi, Veneza
De 29 de março de 2026 a 10 de janeiro de 2027
Lorna Simpson. Third Person e Paulo Nazareth, Algebra
Punta della Dogana, Veneza
Até 22 de novembro de 2026
Kurt Schwitters. Le chaos-monde 1918–1948
Musée national Picasso-Paris, 5 rue de Thorigny, 75003 Paris
De 6 de outubro de 2026 a 7 de fevereiro de 2027
De terça a domingo, das 9h30 às 18h. Ingresso: 16 euros