Das exposições de outono em Paris, a primeira que visitei foi o Cezanne et nous, no Grand Palais, e no meu último texto contei por que voltei lá uma segunda vez. Agora fiquei a fim de falar sobre outra exposição que eu amei nesta temporada, o Remember Me, na Bourse de Commerce. Ainda vou escrever sobre as outras mostras que quero visitar, de Zurbarán a Kurt Schwitters, mas enquanto a visita tá fresquinha, é sobre fotografia que eu quero falar.
1826: duzentos anos de fotografia sob a cúpula
A ideia de projetar imagens reais é muito mais antiga que a fotografia. A câmera obscura, um quarto ou uma caixa escura com um pequeno orifício por onde a luz entra e projeta, de cabeça pra baixo, a imagem do que está do lado de fora, já aparece descrita por Aristóteles e pelo filósofo chinês Mozi, e foi estudada pelo cientista árabe Alhazen por volta do ano 1000. Leonardo da Vinci a descreveu nos seus cadernos, e nos séculos XVII e XVIII ela virou instrumento de desenho para muitos pintores: Canaletto tinha a sua, e há quem defenda que Vermeer também a usou, uma hipótese até hoje discutida. Faltava só uma coisa: a imagem projetada não ficava. Bastava fechar o orifício pra ela desaparecer.
Lá por volta de 1826, Nicéphore Niépce resolve esse problema. Ele cobre uma placa de estanho com betume da Judeia, um asfalto natural que endurece com a luz, coloca a placa dentro de uma câmera obscura e fixa a vista da janela da sua casa em Saint-Loup-de-Varennes, na Borgonha. A exposição foi longuíssima: durante muito tempo se falou em cerca de oito horas, e reconstituições recentes sugerem que pode ter levado vários dias, tanto que a imagem guarda a luz do sol em momentos diferentes, iluminando os prédios dos dois lados. É a fotografia impressa mais antiga de que se tem notícia, e é a partir dela que se contam os duzentos anos que a Bourse de Commerce celebra com Remember Me.
A fotografia é consequência direta da Revolução Industrial. Ela nasce do mesmo impulso que produziu as máquinas e as fábricas: a química, a óptica das lentes e a vontade de reproduzir de forma mecânica aquilo que antes dependia apenas das mãos. Quando Louis Daguerre apresentou seu processo em Paris, em 1839, a pintura começou a perder uma função que exercia havia séculos, a de registrar a aparência real do mundo. Isso abalou profundamente o meio artístico e obrigou a pintura a pensar sobre ela mesma: se a câmera já fazia o registro, o que restava ao pintor?
Muitos artistas resistiram, óbvio. Em 1862, durante um processo nos tribunais de Paris em que os fotógrafos Mayer e Pierson reivindicavam direitos autorais sobre seus retratos, Jean-Auguste-Dominique Ingres foi um dos 26 artistas que assinaram, ao lado de nomes como Hippolyte Flandrin, Constant Troyon e Pierre Puvis de Chavannes, um protesto contra qualquer assimilação da fotografia à arte. Eugène Delacroix se recusou a assinar. E o Musée d'Orsay lembra uma ironia: o mesmo Ingres nunca deixou de posar para os fotógrafos da época. No fim, os tribunais deram razão aos fotógrafos.
Marilyn Monroe por Richard Avedon
Doze anos depois, pintura e fotografia, agora se relacionando muito melhor, protagonizaram um momento histórico sob o mesmo teto. Em 1874, os impressionistas fizeram sua primeira exposição no antigo estúdio do fotógrafo Nadar, no boulevard des Capucines. Monet mostrou ali Impression, soleil levant, Cézanne estava entre os expositores, e Berthe Morisot era a única mulher do grupo a expor. A pintura que se afastava da obrigação de imitar a realidade estreou no endereço de um fotógrafo. É por isso que as exposições deste outono conversam tanto entre si: o bicentenário da fotografia, o Cézanne do Grand Palais, o centenário de Monet e as mulheres impressionistas fazem parte da mesma história.
A exposição reúne cerca de 700 obras de mais de 70 artistas da Pinault Collection, que coleciona fotografia há quase vinte anos. A curadoria foi feita in house, pela própria equipe da coleção, e é a primeira vez que dedicam uma exposição inteira só à fotografia, o que faz dela uma oportunidade rara de ver esse acervo reunido. O percurso ocupa o prédio inteiro, do subsolo ao segundo andar, e vai de Gustave Le Gray a Cindy Sherman, de Dorothea Lange a Wolfgang Tillmans, passando por Dora Maar, Lee Miller, Francesca Woodman e Zanele Muholi. Tem ainda uma instalação inédita com mais de 400 fotografias de Irving Penn e uma sala dedicada a uma série de Raymond Depardon.
Outra coisa que me interessou muito (e isso graças à excelente curadoria) foi perceber como a fotografia retoma os grandes temas da pintura, os mesmos gêneros que a história da arte organizou durante séculos. Em vez de seguir a cronologia, o percurso avança por associações, e as temáticas funcionam como fios condutores. Tem a paisagem marítima, com as ondas que Le Gray fotografou nos anos 1850 ao lado das de Eileen Quinlan, e a equipe da coleção conta que as marinhas da abertura revelam as preferências do próprio François Pinault, conhecido por sua paixão pelo mar. Tem o retrato, com a Marilyn Monroe de Richard Avedon diante da Cindy Sherman que a encarna, e os homens de August Sander relidos por Sherrie Levine. Tem o corpo, com uma sala inteira dedicada às mãos, que começa com uma imagem inédita de Edward Steichen, mãos embaralhando dominós, e passa pela Migrant Mother de Dorothea Lange. E tem a natureza-morta, que eu prefiro o conceito em inglês still life com Irving Penn, que assinou suas primeiras capas de revista, em 1944, com imagens inspiradas na pintura holandesa do século XVII, com direito a uma mosca pousada num limão, como nas vanitas. A paisagem pura também ganha sua sala, e é ali que está o Depardon.
Vale parar um pouco nesse conceito de vanitas. A palavra quer dizer "vaidade" em latim e dá nome a um tipo de natureza-morta que floresceu sobretudo nos Países Baixos do século XVII. O termo vem do Eclesiastes ("vaidade das vaidades, tudo é vaidade"), e esses quadros existem pra lembrar a quem olha que tudo é passageiro: crânios, velas que se apagam, ampulhetas, flores murchando, frutas que começam a apodrecer e insetos pousados sobre elas. A mosca no limão de Penn vem com esse recado. E a tradição faz todo o sentido numa exposição de fotografia, porque a fotografia lida com o efêmero desde a sua invenção: ela fixa um instante que, no momento do clique, já passou. Não tem como não pensar na prática impressionista de capturar um momento específico da luz na pintura e de como a fotografia tenha sido entendida como esse gatilho. O próprio título, Remember Me, "lembre-se de mim", é um pedido contra o esquecimento.
Não me lembro de uma curadoria tão bem pensada, especialmente de fotografia. Um exemplo que me marcou é Dovima with Elephants, que Avedon fez em 1955 no Cirque d'Hiver, em Paris: a modelo Dovima, num vestido de noite Dior, entre dois elefantes. A mesma imagem aparece ali em três tamanhos, pequeno, médio e grande, lado a lado. Segundo a apresentação da exposição, o próprio Avedon nunca conseguiu escolher uma das três versões e acabou guardando todas.
Audrey Hepburn e Richard Avedon, no set de Funny Face
Vale um parêntese sobre Avedon e Paris. A partir do fim dos anos 1940, ele fotografou as coleções de alta-costura da cidade para a Harper's Bazaar, levando as modelos pras ruas, pros cafés e até pro circo, como na foto dos elefantes. Essa Paris pós-guerra inspirou um filme que eu adoro: Funny Face (no Brasil, Cinderela em Paris), um musical de 1957 dirigido por Stanley Donen, com canções de George e Ira Gershwin e figurinos de Hubert de Givenchy (tá, meu bem?) pra protagonista. Um luxo só. Fred Astaire interpreta Dick Avery, um fotógrafo de moda inspirado no próprio Avedon, que descobre numa livraria de Greenwich Village uma vendedora intelectual, vivida por Audrey Hepburn, e a leva a Paris pra transformá-la em modelo. Avedon foi contratado como consultor pro filme e criou as fotografias dos créditos de abertura, compostas como páginas de revista sem contar as sensacionais cenas de shooting. E tem um detalhe: a própria Dovima aparece no filme, como Marion, a modelo que posa na livraria logo no começo. Quem viu o filme pode reconhecer, na Bourse de Commerce, a modelo dos elefantes.
E eu, que amo jazz, não consigo falar desse filme sem pensar nas canções. A trilha usa músicas de George e Ira Gershwin, a maioria escrita em 1927 para um musical da Broadway também chamado Funny Face, estrelado trinta anos antes pelo próprio Fred Astaire, ao lado da irmã, Adele. Várias viraram standards do jazz: "'S Wonderful", "How Long Has This Been Going On?", "He Loves and She Loves" e a própria "Funny Face", além de "Clap Yo' Hands", que vem de outro musical dos irmãos, Oh, Kay!, de 1926. "'S Wonderful" ganhou versões de Ella Fitzgerald e, com sotaque brasileiro e batida bossa-nova, de João Gilberto, no disco Amoroso, de 1977.
Em cada escala, a observação muda: o que se vê primeiro, a distância que o corpo procura, o peso que a modelo e os animais ganham no conjunto. Logo adiante, Cuzco Children, de Irving Penn (1948), aparece em três técnicas de impressão diferentes, e o raciocínio se completa. A ideia atravessa a exposição inteira: a tiragem revela a materialidade da imagem, e às vezes a mesma fotografia aparece duas ou três vezes sem que seja a mesma obra. Pra quem trabalha com imagem, design, direção de arte ou comunicação, esse exercício de escala e de suporte já justifica a visita.
Os pesquisadores vão pensar logo em Walter Benjamin e no ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, escrito em 1935 e publicado pela primeira vez em 1936, em francês. Para Benjamin, o que a reprodução técnica abala é a aura da obra, a sua presença única, o aqui e agora de um objeto que existe num só lugar e carrega a própria história. A fotografia, que pode ser copiada infinitamente a partir de um negativo, seria o meio por excelência dessa perda, e também de uma democratização, porque a imagem sai do museu e chega a todo mundo. O Remember Me tensiona essa ideia. Ao mostrar a mesma imagem em três tamanhos ou em três técnicas de impressão, e ao reunir tiragens em que Penn anotava no verso o papel e os químicos usados, a exposição devolve a cada cópia uma existência própria. Noventa anos depois do ensaio, a reprodução continua técnica, e cada tiragem continua carregando as marcas das escolhas de quem a fez.
O catálogo segue a mesma lógica, e eu achei isso diferente embora não tenha tido vontade de comprar, mas a ideia é boa. Ele traz pouquíssimo texto e se abre em sanfona, em zigue-zague, com as imagens principais da exposição em sequência. Desdobrar aquelas páginas em casa é uma forma de continuar a experiência da visita, com as fotografias falando primeiro.
Irving Penn e o jogo do olhar
A Galerie 2 é toda de Irving Penn: cerca de 450 fotografias, dos anos 1940 ao início dos anos 2000, reunindo pela primeira vez tudo o que a coleção guarda dele. Retratos, moda, naturezas-mortas, estudos do corpo, flores e imagens de viagem formam um mosaico que cobre as paredes de cima a baixo. Penn tratava cada tiragem como um objeto em si e anotava no verso o título, a qualidade da cópia e até os produtos químicos usados.
E a sala propõe um jogo que eu amei. Diante daquela parede de rostos, o visitante é convidado a procurar alguns retratos emblemáticos de Penn, como numa caça ao tesouro, reproduzir a pose do retratado e sair com a própria foto impressa de lembrança. Pra quem conhece a obra de Penn, a brincadeira tem graça dobrada: a partir de 1948, ele fotografou personalidades espremidas num canto do estúdio, entre duas paredes em ângulo, e nesses retratos a pose é quase o assunto da imagem. Transformar a observação em busca é uma maneira muito inteligente de fazer o espectador olhar de verdade, procurar detalhes e comparar, em vez de passar rápido pelas imagens.
Atenção: essa parte da exposição, Le monde selon Penn, fecha antes do resto, em 10 de janeiro.
Raymond Depardon e a viagem como método
Eu adorei a sala de Raymond Depardon. São cerca de cinquenta fotografias coloridas da França, feitas entre 2004 e 2010, quando Depardon atravessou o país sozinho num motorhome (o camping-car dos franceses), levando uma câmera de grande formato, uma chambre 20x25 montada sobre tripé. A regra que ele se impôs foi uma só: uma única imagem por lugar. Diante da fachada de um cinema, de um café, de uma praça de cidade pequena, ele armava o equipamento e fazia apenas aquela fotografia. A chambre obriga a desacelerar, e era exatamente isso que ele buscava: frear o olhar pra observar com precisão.
A trajetória dele ajuda a entender essa escolha. Filho de agricultores de Villefranche-sur-Saône, Depardon passou décadas fotografando conflitos e reportagens pelo mundo antes de voltar o olhar pra França do interior, de onde ele veio. O projeto resultou na exposição La France de Raymond Depardon, na Bibliothèque nationale de France, em 2010, e no filme Journal de France (2012), feito com a companheira, a engenheira de som Claudine Nougaret, que mostra justamente essas viagens. O próprio Depardon sempre reconheceu a dívida com os americanos Walker Evans e Paul Strand, que fotografaram a vida rural dos Estados Unidos com o mesmo enquadramento frontal e paciente.
O que essa sala mostra tão bem é a viagem como método de trabalho. Antes de escolher a imagem, Depardon escolhe a estrada, o veículo, o equipamento e a regra, e é esse conjunto de decisões que dá unidade à série. Uma lição preciosa pra qualquer artista que pensa o próprio processo.
A instalação de Barbara Kruger em Remember Me
Barbara Kruger, de Veneza a Paris
O título da exposição vem de uma obra de Barbara Kruger, Untitled (Remember me), e a primeira coisa que a gente encontra é a instalação dela embaixo da cúpula da rotunda, ocupando também as vinte e quatro vitrines que circundam o espaço. Segundo a própria Bourse de Commerce, é a maior instalação que a artista já realizou na França. Palavras, frases, vozes e sequências filmadas correm em fluxo contínuo, com o vermelho, o branco e o preto que fazem o trabalho dela ser reconhecido de longe.
Achei simplesmente maravilhoso, e ali mesmo lembrei da instalação dela na Bienal de Veneza de 2022. Na exposição The Milk of Dreams, com curadoria de Cecilia Alemani, Kruger ocupou a sala do fim das Corderie, no Arsenale, com Untitled (Beginning/Middle/End): piso e paredes inteiramente cobertos de texto impresso, com projeções em vídeo, de modo que o visitante caminhava literalmente sobre as frases.
Ver as duas obras com quatro anos de distância ajuda a entender a constância desse trabalho. Kruger vem dos anos 1970, da direção de arte de revistas (ela trabalhou como designer na Mademoiselle, da Condé Nast), e desde então usa a linguagem da publicidade pra interrogar quem fala, quem olha e quem é olhado. Numa exposição que celebra duzentos anos de imagem fotográfica, abrir com ela é uma escolha curatorial precisa: antes de nos mostrar as fotografias, a exposição nos lembra que toda imagem chega até nós com uma mensagem.
Uma exposição que ensina a olhar de novo
Saindo da Bourse de Commerce, o que fica é a ideia de que uma fotografia nunca é uma coisa só. Ela muda com a escala, com o papel, com a sala e com a imagem que está ao lado, e a curadoria convida o visitante a comparar, a voltar e a olhar de novo. É o mesmo exercício que me levou duas vezes ao Cézanne, no Grand Palais.
De 12 a 15 de novembro, o bicentenário da fotografia continua na Paris Photo, no mesmo Grand Palais que recebeu, em outubro, a Art Basel Paris. A edição deste ano da Art Basel acabou interrompida: por causa das manifestações em Paris, a feira encerrou suas portas às 19h da sexta-feira, 23 de outubro, e não abriu no fim de semana, dois dias antes do previsto. Depois desse fim antecipado, a gente espera que a Paris Photo traga uma energia de comemoração, à altura dos duzentos anos que a fotografia celebra em 2026. A feira vai ganhar um texto próprio, junto com o que eu achei da Art Basel Paris e das outras feiras da temporada. E as exposições que ainda estão na minha lista, de Zurbarán a Kurt Schwitters, passando por Eva Gonzalès, Mary Cassatt e o centenário de Monet, estão em outro texto aqui do blog.
Um convite pra 21 de novembro
E já que este texto é sobre aprender a olhar: no dia 21 de novembro eu lanço a plataforma de cursos do Conversas sobre Arte, durante a aula Juntando Lé com Cré, para a qual fui convidada pela Gigi Barreto, da Casa Vida Cenário, pra falar sobre repertório. É o mesmo exercício de relacionar imagens que o Remember Me propõe, e a plataforma é um sonho antigo que finalmente ganha forma.
Vem com a gente. Inscreva-se aqui
Informações práticas
Horários e preços conferidos em outubro de 2026 nos sites das instituições e do Office du Tourisme de Paris; vale confirmar antes da visita e reservar com antecedência.
Remember Me Bourse de Commerce, Pinault Collection, 2 rue de Viarmes, 75001 Até 18 de janeiro de 2027 (a galeria de Irving Penn fecha antes, em 10 de janeiro). Das 11h às 19h, às sextas até 21h. Fechado às terças. Entrada gratuita no primeiro sábado do mês, das 17h às 21h. 15 €, reduzido 10 €.
Paris Photo Grand Palais, de 12 a 15 de novembro de 2026.