O homem que ajudou a inventar o impressionismo e nunca chegou a vê-lo: Bazille e como a história da arte escolhe seus heróis
Como mencionei semana passada, fui ver a exposição Renoir et l'amour, com a Gabi da Curtir Paris no Musée d'Orsay, e logo na entrada me deparei com um retrato que parou o meu olhar. Um jovem de jaleco de pintor, pincel na mão, postura concentrada. O título: Frédéric Bazille, 1867. Pintura de Renoir.
Frédéric Bazille, Renoir, 1867 (Musée d'Orsay)
Achei curioso o personagem e ela me indicou assistir um documentário no canal Arte, 1874, o nascimento do Impressionismo, e me dei conta de esse nome que eu conhecia pouco. Frédéric Bazille. Pintor francês, nascido em Montpellier em 1841, contemporâneo próximo de Monet, de Renoir, de Sisley. Alguém que ajudou a fundar aquilo que o mundo, mais tarde, chamou de impressionismo. Morreu em novembro de 1870, numa batalha da Guerra Franco-Prussiana, aos 29 anos, quatro anos antes de a primeira exposição do grupo acontecer.
Fui investigar mais sobre quem ele era. E aí, como acontece quando se puxa um fio, o assunto foi ficando maior do que eu esperava. Acabei chegando a um padrão que vai ficando mais claro quanto mais a gente olha: o método com que a história da arte decide quem merece ser lembrado e quem vai ficando nos rodapés.
O que Bazille construiu e não chegou a ver
Bazille não era periférico ao grupo. Era central. Dividia estúdio com Monet no período mais formativo de ambos, ajudou a financiar As Mulheres no Jardim, obra de Monet recusada pelo Salão Oficial em 1867, comprando-a em pagamentos mensais enquanto os dois tinham igualmente pouco dinheiro. Frequentava o Café Guerbois, onde o grupo se reunia, debatia e ia formulando o que seria uma nova forma de ver: a luz como sujeito, a tela como registro de um instante.
Quando morreu, tinha pintado menos de cem obras. Algumas estão no Musée d'Orsay. Outras em Montpellier, onde há um museu dedicado a ele. Mas na narrativa corrente do impressionismo, o nome quase não aparece.
E o mecanismo aqui é simples e, por isso mesmo, cruel: a morte prematura encerra antes que a reputação se consolide. Sem obra contínua, sem longevidade pra construir presença, o nome escorrega pra margem. A história tende a ser contada por quem ficou vivo pra contá-la.
Quando a narrativa precisa de um único herói
O caso de Bazille é trágico, mas ao menos compreensível. Outros apagamentos têm uma lógica mais deliberada.
Pietro Cavallini nasceu por volta de 1240, em Roma, e passou décadas desenvolvendo um vocabulário visual que antecipou muito do que o mundo depois atribuiria ao Renascimento. Dominava mosaico e afresco com uma sofisticação rara pra época. Nasceu cerca de 27 anos antes de Giotto.
Giorgio Vasari, ao escrever sua Vite de' più eccellenti pittori, scultori e architettori em 1550, o nosso famoso Vida dos Artistas, classificou Cavallini como discípulo de Giotto. Oi? O anacronismo chega a ser desconcertante pra não dizer hipócrita: um homem classificado como discípulo de outro que ainda não havia nascido quando ele já trabalhava. Vasari era toscano, melhor toscano centrado. Seu projeto narrativo tinha uma ideia muito clara: firmar Florença e seus arredores como berço da renovação artística do Ocidente. Roma ficou no rodapé.
Grupo X, Hilma af Klint. 1915
O mecanismo é geográfico e político. A história da arte não é neutra quanto ao lugar de onde vem quem a escreve. (Nunca foi.)
Aí tem o caso de Hilma af Klint, que tem uma lente completamente diferente. A pintora sueca produziu suas primeiras abstrações completas em 1906, quatro anos antes de Wassily Kandinsky pintar aquilo que ficou conhecido como a primeira aquarela abstrata. Af Klint, porém, determinou que sua obra só fosse exibida vinte anos após sua morte, por acreditar que o mundo ainda não estava pronto pra compreendê-la. Morreu em 1944. Sua obra começou a circular nos anos 1980.
Kandinsky ficou com o título de fundador da abstração. Af Klint ficou com uma pergunta sem resposta fácil: o que acontece quando a escolha de proteger uma obra do julgamento precoce é lida pela posteridade como ausência? (Há quem argumente que ela estava certa sobre o mundo não estar pronto. O argumento é razoável. Mas o crédito foi pra outro.)
A estrutura que apaga: casamento, parceria, proximidade com um nome maior
Existe um padrão que aparece com frequência suficiente pra deixar de ser coincidência. Quando uma mulher artista trabalha em parceria com um nome masculino consolidado, ou é casada com um artista reconhecido, sua obra tende a ser absorvida pela sombra do outro.
Berthe Morisot era central ao grupo impressionista. Participou de quase todas as exposições do grupo, era amiga próxima de Édouard Manet, que a pintou onze vezes, e acabou tornando-se sua cunhada: casou em 1874 com Eugène Manet, irmão de Édouard. Antes disso, recusou sucessivas propostas de casamento durante anos pra não abrir mão da pintura. Sua irmã Edma, igualmente talentosa, tinha abandonado a tela logo depois de se casar. Berthe não. Depois do casamento, a dinâmica da família era bastante incomum pra época: era ela que mantinha uma vida pública, enquanto Eugène gerenciava seus rendimentos e se ocupava da filha e da carreira da esposa. Durante décadas, mesmo assim, foi reduzida nas narrativas a "a mulher dos impressionistas", como se a centralidade no grupo fosse uma condição social e não uma posição estética. A escolha deliberada, radical, de ser artista acima de tudo foi apagada junto com o resto.
Lee Krasner foi uma grande pintora do Expressionista Abstrato. Estudou com Hans Hofmann, desenvolveu um vocabulário próprio, rigoroso e original. Era casada com Jackson Pollock. O MoMA só lhe dedicou uma retrospectiva em 1984, quatro décadas depois de seus trabalhos mais radicais.
Charlotte Perriand projetou algumas das peças mais icônicas da arquitetura modernista: a chaise longue LC4, a cadeira B306. Criou essas peças em colaboração com Le Corbusier e Pierre Jeanneret. Durante décadas, o crédito foi inteiramente do escritório de Le Corbusier. Perriand foi sendo reabilitada a partir dos anos 1980.
A colaboração criativa é parte legítima de qualquer prática. O que esse padrão revela é outra coisa: quando a colaboração envolve uma mulher e um homem com nome consolidado, a tendência historiográfica tem sido apagar uma pra iluminar o outro.
Quando raça e gênero se somam
Se o gênero já funciona como filtro de apagamento, a raça opera como amplificador.
Sister Rosetta Tharpe era guitarrista e cantora negra dos anos 1940. Tocava guitarra elétrica com uma técnica e uma presença que influenciaram diretamente o que depois se chamou de rock and roll, antes de Chuck Berry, antes de Little Richard. Morreu em 1973 praticamente desconhecida do grande público. Foram pesquisadores dos anos 1980 que revisitaram os arquivos e começaram a reconstituir o que havia sido perdido.
Yoko Ono era figura central do Fluxus quando conheceu John Lennon em 1966. Seu trabalho conceitual e performático era reconhecido nos circuitos de vanguarda antes disso. Quando passou a ser conhecida pelo grande público, foi como "a mulher que desfez os Beatles". Sua produção anterior ficou invisível. O próprio Lennon disse uma vez que ela era a artista desconhecida mais famosa do mundo: todos sabiam o nome, ninguém sabia o que ela fazia. Em 2017, quarenta e seis anos depois da gravação da música, foi reconhecida como coautora de Imagine. Nesse caso, o mecanismo é múltiplo: gênero, xenofobia, e uma associação conjugal que consumiu a obra própria.
O que fica quando se vê o padrão
Olhando pra esses casos juntos, o que emerge com clareza é que o apagamento na história da arte raramente é acidente. Tem mecanismos identificáveis: centralismo geográfico, morte prematura, estrutura conjugal e social, gênero, raça, parceria com nome maior, escolha própria mal interpretada pelo futuro. A história não apaga por acaso: apaga por método.
O que muda quando a gente vê esse método com clareza é a forma de ler qualquer narrativa histórica. Vasari não era o dono da verdade absoluta. Era um toscano com um projeto. As exposições que viraram marcos não eram o retrato objetivo de uma época. Eram curadorias com critérios especificos.
Isso não diminui Giotto, Kandinsky ou Le Corbusier. Amplia o quadro. E um quadro mais amplo é, quase sempre, mais verdadeiro.